quinta-feira, 2 de julho de 2009

DÍZIMO

TEMA – DÍZIMO
1 - INTRODUÇÃO HISTÓRICA
1.1 COMO E PORQUE SURGIU O DÍZIMO NA HISTÓRIA DO POVO DE DEUS?

O Dízimo na Bíblia surgiu com uma evidência muito grande frente a uma alternativa de Vida, uma modalidade ou uma possibilidade para que de fato o povo vivesse mais em comunidade, o povo salvaguardasse, protegesse a sua vida. E a grande preocupação dessas comunidades era comer em abundância, com fartura de verdade. Então o dízimo de modo particular havia de ser condividido, repartido para os levitas, os órfãos, as viúvas, os estrangeiros; isso significava que tinha uma função de vida presente.Fica claro que o dízimo no Antigo Testamento surgiu como uma alternativa para a sobrevivência da comunidade contra os impostos cobrados pelos poderosos estrangeiros.Como nas comunidades de hoje e também na família a questão do sustento é muito importante; e com Jesus, depois de seu tempo de trabalho de marceneiro, quando ele começou a pregar, apareceram os problemas. Como se sustentar e sustentar o seu grupo?Ele viveu praticamente da hospitalidade, da generosidade das pessoas que o acompanhavam: Marta, Maria, Simão, Lázaro e ou doações, São Lucas fala que havia mulheres, algumas ricas, que acompanhavam Jesus e socorriam a ele e os discípulos com os seus bens e serviços.A Comunidade primitiva assumiu uma coisa muito interessante: ela colocou no coração, o problema do sustento aos pobres, aos necessitados, às viúvas, às pessoas que não tinham bens... Ela vivia da partilha, muitos vendiam os seus bens e colocavam nos pés dos apóstolos, dividiam entre si e não havia necessitados entre eles.Paulo introduziu algo muito importante para os primeiros cristãos. Ele disse: O apostolado não deve visar os bens das pessoas. Por isso Paulo trabalhava com as próprias mãos e ele tinha orgulho de dizer que vivia do seu trabalho, pregava gratuitamente e dava conselho: "O que a gente recebeu de graça, que a gente dê de graça". Mas ele fez também coletas para as Comunidades mais necessitadas. Mais tarde a situação começou a mudar. Com a conversão dos Reis para a fé católica, o Estado passou a fazer doações de terras e assumiu a sustento do clero e da Igreja. Os grandes mosteiros se mantiveram com o trabalho na terra e só aceitaram a terra necessária para a sua subsistência.Com o tempo houve um excesso de acúmulo de bens, gerando por parte de muitos na Igreja, uma posição contrária a essa prática.E no Brasil? Como foi? Podemos dizer que temos que olhar para dois momentos: de um lado a Colônia e o Império e do outro lado a República.
No primeiro momento, ocorreram praticamente três sistemas:
COLÔNIA E IMPÉRIO
1º Sistema: O Rei recolhia todos os dízimos e com isso construía Igrejas, Colégios e pagava os vigários e Bispos.
2º Sistema: Os missionários tentavam criar um auto-sistema. Ex: Os Jesuítas do Paraguai que praticamente tinham fazendas, criação de gados, plantação de trigo e se bastavam a si mesmo e à missão.
3º Sistema: Os cristãos leigos dentro da Igreja pensavam também na missão e na sustentação destes trabalhos.
REPÚBLICA
A República acabou com esse sistema do Estado pagando e abriu uma crise dentro da Igreja. Como sustentar? Apareceram as taxas na hora da celebração dos sacramentos e as espórtulas das missas. Praticamente a Igreja vivia do pagamento dessas taxas, espórtulas e esmolas.O Concilio Vaticano II foi um momento de incentivo para a grande renovação da fé e despertou para a vida Comunitária. Através de caminhos mais evangélicos, algumas Dioceses e paróquias aboliram o pagamento de taxas e desenvolveram uma eficaz Pastoral do Dízimo.Estes exemplos nos incentivaram a seguir o mesmo caminho. Assim se resgata o espírito das primeiras Comunidades Cristãs. A partilha, a generosidade são expressões do Evangelho na vida cotidiana.
2. FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICO – DOUTRINAL
2.1 O DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO:
Deus criou o mundo do nada, portanto Deus é o Senhor de TUDO, tudo é propriedade do Senhor. Deus dominou e organizou o caos, o grande universo. O homem recebeu o poder de dominar e organizar o mundo terrestre, porque ele é "imagem e semelhança de Deus". Grande missão e grande poder, mas que tem sua razão de ser na dependência divina do homem. Assim o homem vai se multiplicando, povoando a terra e numa relação de intimidade com o seu Senhor, oferece-lhe sacrifício, primícias e holocaustos.Caim e Abel dedicam-se a duas culturas básicas: Agricultura e criação de gado. Ambos oferecem parte do fruto do seu trabalho Gn 4,3-4 "Depois de algum tempo Caim apresentou produtos do solo como oferta a Javé. Abel, por sua vez ofereceu os primogênitos do seu rebanho. Javé gostou de Abel e de sua oferta". Ambos fizeram suas ofertas ao Senhor, em sinal de gratidão. No entanto, a oferta de Abel agradou a Deus e a de Caim não foi aceita. Ambos ofereceram o fruto do seu trabalho, mas Abel escolhe e oferece os primogênitos, o melhor, enquanto Caim oferece os frutos, qualquer fruto, talvez os piores, só para cumprir um preceito. E Deus que vê o coração, se alegra com a oferta de Abel! Sabemos as conseqüências...Depois vem o dilúvio. Noé representante duma nova humanidade, após o dilúvio, oferece um sacrifício a Deus, que não deixa o homem ser dominado pelo caos. Gn 8,20: "Noé construiu um altar para Javé, tomou animais e aves de toda espécie pura e ofereceu holocaustos sobre o altar".Deus quer organizar seu povo. Abraão nosso patriarca, recebe de Deus uma missão. "Deixa tua Terra..." (Gen 12,1). Abraão se põe a caminho... Faz caminho... Abre novos caminhos...Com Abraão inicia-se um novo povo. A missão de Abraão é trazer benção para todas as nações da Terra.Abraão é o primeiro a oferecer o DÍZIMO. E o dízimo é OFERECIDO, a Melquisedec, sacerdote do Deus Altíssimo (Melquisedec cultuava o mesmo Deus de Abraão). Ele inicia uma forma diferente, pois até aquele momento os povos ofereciam suas dádivas diretamente às divindades, e Abraão oferece o Dízimo a seu representante. Ele oferece uma medida - 10%. O sacerdote do Deus Altíssimo abençoa Abraão - é o Dízimo gerando Benção - Graça.Abraão é portador do NOVO. A novidade consiste em ser fiel a promessa de Deus, que nunca falha. Deixa o exemplo à sua descendência.Jacó reconhece Deus como único Senhor e enterra os ídolos (deus falsos) e dá a Deus o dízimo de todos os seus bens.Assim no Antigo Testamento vemos o exemplo dos patriarcas que são fiéis na entrega do dízimo. Em alguns textos o dízimo é apresentado como Lei, norma.A legislação mosaica apresenta diversos textos que falam do dízimo.Levitíco 27,30 - "todos os dízimos da terra, tanto dos produtos da terra como dos frutos das árvores, pertencem a Javé: é coisa consagrada a Javé" e 27,32 "Os dízimos de animais, boi, ou ovelha, isto é, a décima parte de tudo o que passa sob o cajado do pastor, é coisa consagrada a Javé". Deuteronômio 12,6 - estabelece onde os dízimos e oferta devem ser levados: ao Templo de Jerusalém, com indicação de várias normas. Tal legislação reflete a centralização do culto na reforma de Josias (ano 620ac). Em Deuteronômio cuida-se também dos direitos dos levitas e dos necessitados. No capitulo 26,1-11, descreve-se o ritual da entrega das primícias, fazendo uma oração com o resumo da história de Israel, como motivação para a entrega das primícias "Trata-se de um credo histórico", isto é, uma que reconhece o Deus vivo, presente e agindo na história do povo.A legislação do livro de Números explica porque os levitas têm direito a receber o dízimo: Num 18,21: "Eis que aos filhos de Levi dou por herança todos os dízimos arrecadados em Israel. Pelos serviços que prestam na Tenda da Reunião". No entanto em Números 35,1-8, os levitas recebem cidades próprias, com o território determinado, para conseguirem seu sustento. Mas certamente a solução para o sustento dos levitas deve ter criado outros problemas, exigindo reformas.No 2º livro de Crônicas, o rei Ezequias, em reforma geral do culto, revigora a instituição do dízimo para que os sacerdotes e levitas possam dedicar-se melhor às suas funções.II Crônicas 31 "... daremos o Dízimo de nossa terra aos levitas..." Com essa organização "o povo de Judá se alegrava por ver em seus postos os sacerdotes e levitas".Ezequias, Neemias e Malaquias foram encarregados pos Deus de realizar reformas junto ao seu povo que estava falhando nas suas obrigações. Essas reformas eram sempre de retorno a Deus e se fazia através do retorno ao dízimo".O justo Tobias é modelo de consciencioso cumprimento do dever do dízimo nas suas várias formas: Tobias 1,6-8: Muitas vezes, eu era o único a ir em peregrinação a Jerusalém, por ocasião das festas, a fim de cumprir a Lei perpétua que obriga todo o Israel. Eu corria a Jerusalém com os primeiros produtos da lavoura e as primeiras crias dos animais, com o dízimo do gado e a primeira lã das ovelhas, e os entregava aos sacerdotes. Filhos de Aarão, para o Altar. Aos levitas vinho e óleo, das romãs, dos figos e das frutas... O terceiro dízimo eu dava para os órfãos, as viúvas e os estrangeiros...Vários profetas falam sobre a importância do dízimo, alertando, no entanto, para os exageros da referida prática”.Ao final do Antigo Testamento Deus faz uma proposta a seu povo, para que façam uma experiência concreta de confiança no seu Senhor, para que testem a bondade infinita de Deus, prometendo conceder muito além do necessário (Malaquias 3,10).Assim, no Antigo Testamento, o Dízimo inicia gerando graça e benção em Abraão e conclui com uma promessa de mais graça e benção em Malaquias.
2.2 DÍZIMO NO NOVO TESTAMENTO
Novo Testamento é a Nova Aliança, a Boa Nova.O Novo Testamento é o livro da Nova Lei e vai além de tudo que era normal no Antigo Testamento. "Afinal o ordinário, o normal até os pagãos conseguem realizar, mas extraordinário, só os Filhos de Deus"."No Antigo Testamento, o homem oferecia o Dízimo em virtude da Lei, pelo temor".No Novo Testamento, a Lei do Temor é substituída pela Lei do Amor, e o homem passou o oferecer o Dízimo pelo amor.Jesus assume a nossa história, para nos indicar um modo novo de viver. Ele nos revela um DEUS PAI, ensinando-nos o Amor filial, e um mundo de irmãos - amor fraternal. Deus já não faz aliança com apenas um povo, mas com todos aqueles que assumam a PROPOSTA DO REINO - Que não haja necessitado entre nós, pois somos filhos do mesmo Pai, que é o SENHOR DE TUDO. O Dízimo estabelece o direito da partilha de tudo que possuo.Assim com a vinda de Jesus, os tributos religiosos, impostos pela Lei são substituídos pela oferta consciente, alegre e espontânea dos cristãos.DÌZIMO NÃO É LEI, É GRAÇA. Romanos 6,14 "Pois o pecado não os diminuirá nunca mais, porque vocês já não estão debaixo da Lei, mas sob graça".Jesus nos convida a dividir de graça tudo que possuímos, o que vem de Deus com os irmãos. Mateus 10,8 - "de graça recebeste de graça daí".Jesus respeita a lei e a cumpre: Mateus 17,24-27: Jesus apesar de Filho de Deus, presente na criação, Senhor de Tudo, paga o tributo ao Templo. Mas manda Pedro pescar e tirar o dinheiro do fruto de seu trabalho. Pedro era pescador. O Dízimo deve ser resultado do fruto do meu trabalho. Não posso esperar o milagre do dinheiro fácil para levar o Dízimo ao Templo.Jesus não é contra o dízimo, mas Ele denuncia a inversão de valores (Mt 23,23), nos alertando para algumas ATITUDES DO DIZIMISTA.VIVÊNCIA DO AMOR, JUSTIÇA E MISERICÓRDIA - nosso dízimo só tem valor se for fruto da justiça, da misericórdia, do amor, que são os sinais do reino. Mateus 23,23 e Lucas 11,42 - "Ai de vós escribas e fariseus, que pagais o dízimo da hortelã, da erva doce, e do cominho, e deixam de lado os ensinamentos mais importantes da Lei, como a justiça, a misericórdia e o amor... vocês deveriam praticar isso, sem deixar aquilo".
HUMILDADE - Não somos salvos porque pagamos o dízimo, mas é importante saber que a prática do dízimo exige uma atitude de humildade e misericórdia diante dos outros. (Lucas 18,9-14) - Fariseu e Publicano.
CONFIANÇA - A disponibilidade em ser generoso no dízimo supõe não ter medo de faltar algo em sua mesa. Dízimo é uma questão de confiança no Pai de que nada nos irá faltar. Lucas 12,15 "Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens".
GENEROSIDADE - DESAPEGO - O Dízimo nos ajuda a nos desapegarmos dos bens materiais e colocarmos nosso confiança em Deus. Timóteo 6,10 "Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Por causa dessa ânsia de dinheiro, alguns se afastaram da fé e afligiram a si mesmos com muitos tormentos".
FIDELIDADE - Com o dízimo atestamos nossa fidelidade a Deus. Lucas 16,10-11 - Quem é fiel nas pequenas coisas também é fiel nas grandes, e quem é injusto nas pequenas coisas também é infiel nas grandes coisas. Por isso se vocês não são fieis no uso do dinheiro injusto, quem lhes confiará o verdadeiro bem? Desse modo Jesus denuncia a hipocrisia e combate a atitude dos doutores da lei e dos fariseus que iam contra o espírito fundamental da religião que é a vivência do amor, justiça e misericórdia. Mas muitas vezes Cristo lembra que o cristão deve dar sua contribuição material para as necessidades da comunidade e do ministério da Igreja (Lc 10, 7, Mt 10,9-10).Assim os primeiros cristãos vivem a prática do Dízimo num sentido muito mais amplo, pois partilham não apenas uma parte do que têm, mas partilham TUDO e cada um recebe de acordo com sua necessidade, não havendo necessitados entre eles. Esta é PROPOSTA DO Reino. Atos 2,44-45 e 4,32-35."Portanto o NOVO TESTAMENTO nos convida a suplantar a velha medida decimal, contida no Antigo Testamento". No Novo Testamento o dízimo não tem medida, não tem limite. Zaqueu dá 50%. A viúva dá 100%. Os primeiros cristãos davam TUDO! É uma questão de compromisso de fé e não de percentual. No Novo Testamento não acharemos a palavra Dízimo e sim: justiça, amor, partilha, comunhão, fraternidade, etc.O Novo Testamento não indica medida para o dízimo, visto que Jesus veio nos libertar da imposição das normas que escravizam o homem nos indicando uma forma livre de agradar o Pai. A medida e a do coração. II Corintios 9, 7-8 "Cada um dê conforme o seu coração, sem pena ou constrangimento, porque Deus ama a quem dá com alegria. Poderoso é Deus para cumular-vos com toda espécie de benefícios, para que tendo sempre o necessário, vos sobre ainda muito para toda espécie de boas obras".
2.3 OS CINCO MANDAMENTOS DA IGREJA DE JESUS CRISTO
No começo do cristianismo, prevaleceu na Igreja a partilha dos bens, mas aos poucos, na medida em que a Igreja ia crescendo, tornou-se necessária à retomada do dízimo como forma de garantir a manutenção da Instituição. Diversos Concílios tornaram obrigatório a prática do dízimo na Igreja, tendo em cada País um desdobramento diferente. Por isso nós aprendemos no Catecismo que um dos cinco preceitos da Igreja é "contribuir com o dízimo de acordo com o costume de cada lugar". Assim o Dízimo, que é Bíblico, faz parte também dos ensinamentos da Igreja.
1 - Participar da missa inteira aos domingos e festas de guarda e permanecer livres de trabalhos e atividades que poderiam impedir a santificação desses dias;2
- Confessar os próprios pecados pelo menos uma vez ao ano;
3 - Receber o Sacramento da Eucaristia pelo menos na Páscoa;
4 - Abster-se de comer carne e observar o jejum nos dias estabelecidos pela Igreja;
5 - Suprir as necessidades materiais da própria Igreja, segundo as próprias possibilidades.
(Nova versão dos mandamentos da Igreja segundo o Novo Catecismo da Igreja Católica)
2.4 DIRETRIZES GERAIS - 1999-2002 - Nº 48O Catecismo diz o seguinte: "Os fieis cristãos têm ainda a obrigação de atender, cada um segundo as suas capacidades, às necessidades materiais da Igreja" (nº 2043 & 1). O Código de Direito Canônico diz: "Os fieis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é necessário para o sustento dos ministros" (Can. 222 § 1).2.5 PORQUE IMPLANTAR O DÍZIMO?Porque é esse o caminho escolhido pela Igreja do Brasil. Na XVI Assembléia Geral em Itaici - SP (1974) os bispos optaram pelo Dízimo. Destacaram 6 pontos importantes que devemos ter presentes:
1 -Todas as Igrejas particulares no Brasil devem ter como meta a implantação do dízimo como sistema de contribuição sistemática e periódica, que substitua progressivamente o sistema de taxas.
2 - Haja um intenso trabalho de conscientização do povo e dos agentes de pastoral e de progressiva organização do sistema ao nível diocesano, paroquial e de base.
3 - As Igrejas, dentro de um mesmo regional, devem prestar mútua ajuda, fazendo circular as várias experiências.
4 - Os regionais cuidem da elaboração de subsídios, onde eles forem necessários e pedidos pelas Igrejas particulares.
5 - Os organismos nacionais prestem aos regionais a devida assessoria.
6 - Cada Igreja Particular fixará a data a partir da qual será obrigatória a implantação do sistema."O Dízimo é meta a ser alcançada. Não é mera exortação ou um objetivo desejável. As Igrejas Particulares devem buscá-la".Essas conclusões são fruto de uma reflexão que se iniciou em 1967.(Estudo da CNBB 8 pg. 9 e10)

2.6 O DÍZIMO NA DIOCESE:
A Diocese desde 1994 vem dando passos crescentes nesta conscientização. Em seu Documento Pastoral "Diretório da Vida sacramental", regulamenta a opção pelo sistema do Dízimo.566 - Seja o dízimo para cada fiel e para a Comunidade Eclesial de Base expressão do reconhecimento da infinita gratuidade de Deus. Seja a entrega do dízimo autêntica consagração de nossos bens e trabalhos a Deus.567 - Incentive em cada uma de nossas comunidades eclesiais a Pastoral do Dízimo, como forma de conscientização para a partilha e a solidariedade, progredindo para asolidariedade maior vivida pelas primeiras comunidades cristãs: "um só coração e uma só alma. Tinham tudo em comum, não havendo necessitados entre eles". (Cf Atos 2,42-47).568 - Progridam as Comunidades Eclesiais de base na consciência da entrega do dízimo como autêntica forma de sustento da igreja, na evangelização e na caridade para com os empobrecidos.
3. AS DIMENSÕES DO DÍZIMO
O resultado financeiro da opção pelo dízimo deve ser bem administrado pela Comunidade, pela Paróquia e pela Diocese. A prestação de contas e o plano financeiro SÃO FUNDAMENTAIS, pois os dizimistas descobrem que contribuir para os serviços do culto e dos irmãos vem a ser um testemunho, dado ao mundo, de que os cristãos reconhecem o sentido social e comunitário dos bens a eles confiados.Desta forma, o Dízimo tem um destino certo que são as três dimensões propostas na Bíblia: Religiosa, Social e Missionária.
3.1 DIMENSÃO RELIGIOSA: "O zelo por tua casa me consome" (Jô 2,17)O Dízimo deve ser um auxílio na caminhada de fé e o lugar onde eu vivo esta fé deverá ser bem cuidado para que todos possam usufruir com conforto e dignidade. O Templo, lugar de encontro com Deus e com os irmãos para a oração, deve ser um lugar adequado ao louvor e a adoração e tudo isto tem um custo sonorização, velas, livros, hóstias, folhetos de cânticos, enfim tudo o que usamos dentro do templo é custeado pelo Dízimo.Nesta dimensão também entram os cuidados com os padres que merecem todo o carinho da comunidade onde prestam seus trabalhos aplicando seus conhecimentos e seus serviços.
3.2 DIMENSÃO SOCIAL: "... tive fome e me destes de comer..." (Mt 25,35).Jesus configura-se no pobre e não há melhor forma de encontrá-lo senão onde Ele mesmo deixou-se ficar - no rosto dos pobres e dos necessitados. Nesta dimensão compreendemos e praticamos o pedido de Jesus. A Igreja deve responsabilizar-se pelos necessitados e não se pode dormir em paz sabendo que nossos irmãos passam pela dor da fome, do frio e das carências mais primárias. Sua contribuição soma-se a outras tantas e multiplica-se no auxílio a quem merece nosso total carinho.
3.3 DIMENSÃO MISSIONÁRIA: "... pregai o evangelho a todos..." (Mc 16,15)O dízimo deve levar a minha comunidade toda a ser sinal de salvação. Todos nós que somos batizados somos missionários, diz o Vaticano II. O dízimo vai sustentar as Igrejas mais pobres que não têm condições de se manter. Sustentar a missão, como tarefa primeira da Igreja é compromisso que devemos assumir como mandato do Senhor: "Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho". Para se missionário em terras estrangeiras, onde tudo falta, onde a miséria é a situação mais comum encontrada, precisa de uma base de sustentação financeira. "Dar da nossa pobreza!". Dar do pouco que temos para que outros também possam receber a mensagem da Boa Nova. Quem ajuda a missão também é missionário... Um comportamento de honestidade, de prática da justiça são argumentos fortes para atrair os que não vivem a fé no mundo onde vivemos. Mas cada um de nós que é batizado, missionário, portanto, deve ter outra preocupação: levar a todas as pessoas a dimensão da fé. Esta realidade de Deus que aconteceu um dia em nossa vida, através do batismo, deve acontecer em todos. A fé é um dom gratuito de Deus, que acontece nas pessoas, através das pessoas que a têm.Muita gente no mundo inteiro ainda não é batizada em nome de Jesus. E não o é porque não ouviram falar de Jesus. Não ouviu falar porque ainda não houve quem fosse até essas gentes para dar testemunho de Jesus. E será que não houve quem fosse por não ter sido enviado? Romanos - capítulo 10,9-17. A fé é condição para a salvação. Cada um de nós é responsável para que isto aconteça.Não podemos preocupar-nos somente com a nossa salvação. A preocupação deve ser universal, porque eu sou batizado, missionário, Igreja. Isto me proíbe pensar só em mim. Todos devem estar no meu plano de busca da salvação. Nós não salvamos ninguém, não convertemos ninguém, quem salva e converte é Deus. Mas Ele nos quer participantes de seu plano de salvação. Foi por isso que enviou seu missionário, Jesus, para anunciar o Evangelho. E Jesus enviou os discípulos a evangelizar e continua enviando ainda hoje. E os enviados somos nós.Quando sabemos que mais da metade da humanidade não crê em Jesus após 2000 anos, isto deve nos preocupar. Quando sabemos que no Brasil existem milhões de pessoas que não tomam conhecimento dos valores cristãos, devemo-nos questionar. Nos grandes centros, talvez só 5% das pessoas procuram manifestar vida de fé, pelo menos participando das celebrações comunitárias aos fins de semana. É ainda a maior expressão de participação comunitária dos que temem a Deus.Outro fato deve ferir minha consciência acomodada: 70% das pessoas que vivem no Brasil são carentes, necessitadas de algo fundamental para suas vidas. O que é mais grave: 30% da população vivem em extrema miséria. E tudo por culpa de um processo de egoísmo desencadeado. Se a, nível de salvação eterna, me preocupo apenas comigo mesmo, porque me preocupar a nível desta vida com os outros? É preciso reformular a vida numa dimensão mais abrangente. Sair de nós mesmos e buscar o outro. É preciso perguntar:Que conseqüência tenho dado ao meu batismo? Tenho dado uma dimensão missionária à minha vocação cristã?Quando eu contribuo na minha comunidade para que ela possa desenvolver um trabalho pastoral eficiente, uma catequese eficaz, para que ela possa preparar catequistas, animadores de comunidades, missionário para evangelizar, meu dízimo assume uma dimensão especial na minha vida, assume a dimensão missionária. Quando eu ajudo minha comunidade a preparar e enviar missionários, sou eu que envio. Onde estiver o missionário, eu estarei com ele. São Paulo diz: "Quem colabora com o pregador tem merecimento de pregador”.São Paulo se alegrou e louvava a Deus quando as comunidades se ajudavam. As comunidades pobres faziam coletas para implantar o Reino de Deus em outros lugares (II Cor. 8,1-3). Isto é que é ser Igreja: estarmos atentos às necessidades das outras comunidades.Contribuindo na minha comunidade, estou contribuindo com a Igreja toda, porque parte de tudo é encaminhado à Diocese, e o Bispo de cada Diocese se encarrega de estabelecer a comunhão universal, participando dos projetos de solidariedade com outras dioceses, e com a Igreja toda.
3.4 OS PRINCÍPIOS DO DÍZIMOSão três os princípios que norteiam a prática do dízimo.
1º princípio: CONVERSÃO.
João Batista já apontava a partilha como sinal de conversão àqueles que perguntavam: - O que devemos fazer? - Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem. E quem tiver comida, faça a mesma coisa. (Lc. 3,11). Só é dizimista quem atendeu e aderiu de coração ao Projeto de Deus, ou seja, é convertido.
2º princípio: FIDELIDADE
O Dízimo é sinal de fidelidade a Deus e à sua Palavra. É fazer uma experiência com Deus, conforme as palavras de Malaquias: "Fazei a experiência, dia o Senhor, e vereis se não derramo a minha bênção sobre vós" (Mal. 3,16).
3º princípio: PERTENÇA
O Dízimo é sinal de nossa pertença à Igreja, família de Deus. Quem tem uma família, sente-se na obrigação de colaborar com ela. Como membros da Igreja, família na qual fomos inseridos a partir de nosso batismo, devemos sentir-nos responsáveis por ela e colaborar para suprir as suas necessidades.O Dízimo é o gesto concreto que expressa nossa participação na vida da Igreja.
3.5 ATITUDES QUE BROTAM DA GRATUIDADE
CARIDADE: É o maior dos dons, elimina pecado, mas não substitui o dízimo nem tão pouco a oferta do altar.
ESMOLA: Somos chamados a viver de modo íntegro com nossos irmãos necessitados que nos peçam e batem à nossa porta.
DONATIVO: São doações esporádicas que realizamos em caso de campanhas beneficentes etc...
CONTRIBUIÇÃO: É aquela assumida em caráter provisório, ou permanente, destinadas às instituições filantrópicas e outras, como ajuda, por simpatia ao trabalho realizado.
DÍZIMO: Tem por base a nossa produção, de tudo que produzimos uma parte destinamos a comunidade Igreja, local onde Deus faz residir o Seu nome.
OFERTAS: São aquelas deixadas no altar do Senhor dentro da liturgia. Muitos não vivem esse momento como de fato são chamados a viver diante de Deus.
4. ESPIRITUALIDADE
O Dízimo integra a espiritualidade cristã. Para ser agradável deve ser acompanhado de perdão, justiça, misericórdia, fidelidade, humildade, fé, esperança, caridade, confiança, perseverança, coragem, entre outras virtudes.Nele encontra-se um grande valor espiritual. É uma graça ser convidado a ser dizimista.Oração do Dizimista.Jesus Misericordioso,Entrego-Vos, com o meu dízimo,o meu amor,o meu querer,o meu sentir,a minha vontade,o meu pensamento,o meu trabalho,a minha vida,e que eles Vos sejam agradáveis.Transformai-me e purificai-mepara que possa Vos servir eternamente.Tudo que era meu agora Vos pertence. Amém.
4.1 A FIDELIDADE DE DEUS
A raiz primordial e a razão mais profunda para nos sentirmos impelidos a ser -mos fiéis reside na própria fidelidade de Deus. Toda a relação entre Javé e o seu povo se sintetiza como uma aliança de amor: "Eu farei de vós o meu povo, serei o vosso Deus" (Ex 6,7). É um vínculo que nunca se poderá quebrar porque se fundamenta em que Ele, Javé, é fiel (Deut 32,4) e por isso pode Javé reclamar correspondência: "Eu quero amor fiel, não a exterioridade" (Os 6,6). No Novo Testamento, os Apóstolos contemplaram permanentemente admirados, essa fidelidade de Deus, ainda que muitas vezes o homem a atraiçoe: "Se o negamos Ele permaneceu fiel" (2Tm 2,13). Esta conduta coerente do Senhor será sempre estímulo para lutar com esperança, "pois fiel é Deus, por quem fostes chamados" (1Cor 1,9) e não permitirá que "sejais tentados acima das vossas forças" (1Cor 10,13).Quando alguém cai, a fidelidade divina convida-o a levantar-se: "Se confessamos os nossos pecados, Ele é justo e fiel, perdoa-nos e purifica-nos de toda a iniqüidade".Para correspondermos à fidelidade de Deus, nós os homens, somos chamados a guardar-lhe lealdade: "O homem fiel será sempre louvado, terá bênçãos abundantes" (Prov 28,20). São João ensina os fiéis a agir fielmente em tudo o que fazem (3 Jo 5,5), já quesomente os fiéis permanecem com Ele no amor (Sab 3,9).A fidelidade de Deus é, pois, a causa da fidelidade humana. Por isso, o primeiro de todos os nossos deveres é o de sermos fiéis a Deus e a tudo o que se relaciona com a missão que Ele atribui a cada um e que pode chegar a manifestar-se sob a forma de um chamado particular para compreender a vida inteira por amor.A oportunidade de realizar grande feitos apresenta-se muito poucas vezes na vida. Pelo contrário, as coisas pequenas são tão freqüentes e constantes que a fidelidade em cumpri-las é quase heróica. É necessária atenção permanente, espírito de sacrifício, generosidade de coração. É impossível que um só detalhe não tenha transcendência."O que é pequeno, pequeno é; mas aquele que é fiel no pequeno, esse é grande", diz Santo Agostinho.
4.2 DÍZIMO É PARTILHA
Para podermos entender o que é partilha precisamos mergulhar no próprio ministério de Deus, porque Deus é partilha. Quando dizemos que Deus é Amor, nós afirmamos que Deus é Amor partilhado entre três pessoas, reafirmando nossa fé no mistério inefável da Santíssima Trindade. Sendo partilha por natureza, Deus reparte conosco a vida através da criação, a sua intimidade, através da Revelação, e partilha conosco o que Ele tem de mais precioso que é seu próprio Filho. A Encarnação e a Redenção são mistérios da partilha de Deus com a humanidade. Jesus Cristo partilha sua vida conosco, e na hora de sua morte, nos dá a própria Mãe para ser Mãe de todos nós. No Sacramento da Eucaristia Ele partilha conosco, nos sinais do pão e do vinho, o seu corpo que é “doado” e o seu sangue “derramado” para a salvação de todos. Por isso a Eucaristia é o Sacramento da Partilha total, sem restrições.Já no Domingo de Páscoa, e de forma plana no dia de Pentecostes, o Espírito Santo é efundido sobre a Igreja, sendo partilhados seus dons entre todos os crentes.Para continuar a sua missão no mundo, até o fim dos temos, Jesus Cristo deixa-nos a sua Igreja que se caracteriza como uma comunidade de partilha.
5. PARA REFLETIR
a) O Dízimo é um pôr-se a caminho. Quem opta pela partilha escolhe a melhor e mais fecunda forma de trilhá-lo. Em seu serviço ministerial como você está trilhando ou planeja trilhar este caminho?
b) Nunca podemos afirmar que não aceitamos o Dízimo sem antes termos feito a experiência. Como o seu serviço pela pregação da palavra e o seu testemunho poderão ser eficazes na ação evangelizadora dentro da sua comunidade / paróquia?
c) O povo tem o direito de ouvir falar corretamente sobre o Dízimo e Oferta. Todos os Sacerdotes, Diáconos, Religiosos e nós leigos temos a obrigação de orientar o povo contribuindo para que façam a experiência com fidelidade. Como seu serviço ministerial contribuirá neste processo de conscientização?
d) Dízimo é fruto de uma conversão. Nós somos Igreja na medida em que participamos e colaboramos com ela. Como o seu Ministério poderá colaborar para que ela possa evangelizar através das dimensões Religiosa, Social e Missionária?
e) Diante do estudo apresentado podemos afirmar que o Dízimo tem fundamentos Bíblico, Teológico, Comunitário e Pastoral. Comente esta afirmação.
6. APROFUNDAMENTO BÍBLICO - DÍZIMO E OFERTA
ANTIGO TESTAMENTO
Gênesis – 4, 3-5Gênesis – 12, 7-8Gênesis – 14, 18-20Gênesis – 26,12Gênesis – 28, 17-22Êxodo – 22, 28-29Êxodo – 25, 1-2Exodo 34,26Êxodo – 35,5Êxodo – 35,29Êxodo – 35, 4 -5Êxodo – 36, 5 -7Levítico – 14,10Levítico – 19, 9-10Levítico – 27, 30-32Deuteronômio – 8, 11-18Numero 18,8.21Números – 18, 25-29Deuteronômio – 12, 11-28Deuteronômio – 14, 22-29Deuteronômio – 14, 27-29Deuteronômio – 16, 10, 15-17Deuteronômio – 24, 19-21Deuteronômio – 26, 12-13Deuteronômio – 28, 1-14I Samuel – 8, 15I Reis – 17,16II Reis – 4, 2-4I Crônicas – 29, 9II Crônicas – 31, 2-6Neemias – 10,33Neemias – 10,40Neemias – 13, 10-13Tobias – 1, 6-7Salmo – 111Provérbios – 3, 9-10Provérbios – 11, 24-26Provérbios – 20,25Eclesiastes – 5, 4-5Eclesiástico – 35, 1-6Eclesiástico – 35, 4-10Ezequiel – 45,1Amós – 4,4Ageu – 1,9Malaquias – 1, 13-14Malaquias – 3, 8-12NOVO TESTAMENTOMateus – 2,11Mateus – 3,5-10Mateus – 5, 23-25Mateus –6, 2-4Mateus – 7,11Mateus – 10,8Mateus – 10,42Mateus – 17, 24-27Mateus – 22, 15-22Mateus – 23,23Mateus – 25, 24-27Mateus – 25, 34-40Marcos – 6, 8-10Marcos – 12, 13-17Marcos – 12, 41-44Lucas – 6,39Lucas – 10, 7-9Lucas – 11,42 Lucas – 12, 41-44Lucas – 16, 10-11Lucas – 18, 9-14Lucas – 19, 8-10Lucas – 21, 1-4Jo 20,21Atos – 2, 42-47Atos – 4, 34,37Atos – 5, 1-5I Jo 3,18Romanos 13,8Romanos – 15,26I Coríntios – 9, 4-14I Corintios 9,16I Coríntios – 11, 20-22I Coríntios 13,3Ii Coríntios 5,17II Coríntios – 8,14II Coríntios – 9, 6-13Gálatas – 6,6Efésios – 4,28Filipenses – 2,13I Timóteo – 6, 7-10Hebreus – 7,4-8I Pedro – 4,107. BIBLIOGRAFIAS● Bíblia Sagrada, Ave Maria.● Celebrando – A Partilha Santifica. Equipe Diocesana do Dízimo e Liturgia. 2004● Celebrando – Chamados à Fidelidade. Equipe Diocesana do Dízimo e Liturgia. 2006● Dízimo, Evangelização para uma nova terra e um novo céu. Equipe Central Pastoral do Dízimo – Arquidiocese de Vitória, 1998.● Calendário do Dízimo. O Recado 2006.● Catecismo da Igreja Católica.● Dimensão Bíblico Catequética, Diretório Diocesano da Vida Sacramental. Diocese de Cahoeiro de Itapemirim ES 2ª edição. 2002.● Estudo nº 08 CNBB, 8ª edição, Paulinas 2003.●Tatto, Antoninho. Dízimo e Oferta na Comunidade. O Recado, 1983, 47ª edição. São Paulo, Brasil.● Fita de vídeo. A Pastoral da Partilha● Madureira, Aristides L. Partilhando a Vida em Família. A Partilha Editora Ltda. 2ª edição.

Fonte:
Elaboração: Equipe Diocesana do Dízimo
http://dizimo-secretariado.blogspot.com/2007/05/encontro-da-cartilha-de-ministro-da.html

quarta-feira, 11 de junho de 2008

CONGRESSO AMERICANO MISSIONÁRIO



A IMPORTÂNCIA DOS COMLAs e CAMs

Os sete Congressos Missionários Latino-Americanos (Comlas) e os dois Congressos Missionários Americanos (CAMs) tornaram-se o referencial da animação e formação missionária da América, tendo inclusive influenciado na dimensão missionária da Igreja latino-americana, uma vez que várias de suas propostas foram levadas em conta pelas Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano. Tornaram-se, pois, uma resposta para a consciência missionária “ad gentes”.Neste sentido, os CAMs–Comlas são eventos de transcendência e importância para a caminhada missionária da América, à medida que despertaram e animaram muitas Igrejas particulares a incrementar seu dinamismo missionário e enviar missionários “além-fronteiras”, “dando de sua pobreza” (DP 368).É bem sabido que os processos de preparação, incluindo o Instrumento de Trabalho, os Anos Missionários, a preparação da sede, as animações nas paróquias para conseguir alojamentos para os congressistas, a participação do clero, dos Bispos, religiosas, religiosos e Povo de Deus nas diferentes etapas que compreendem um CAM–Comla fortalecem muito a catolicidade e comprometem ainda mais com a dimensão missionária da Igreja.Cabe dizer que a vitalidade que os CAMs–Comlas adquiriram é vivida e sentida em todos os países, uma vez que na etapa preparatória é programada e realizada uma série de atividades de animação e formação missionária para todo o Povo de Deus, o que demonstra que a dimensão missionária reúne todos os setores da nossa Igreja na América.Devemos ressaltar que o CAM 3–Comla 8 terá estreita relação com a preparação da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, que dará ainda maior transcendência ao CAM 3–Comla 8, devido às implicações dela em cada Igreja particular.
É o caso de ressaltar que todos os países que organizaram os CAMs–Comlas mencionaram que o trabalho realizado em sua preparação é muito exigente, e, ao mesmo tempo, uma grande bênção para o país anfitrião.
OBJETIVO GERAL
Propiciar nas Igrejas particulares da América o acontecimento iminente de Pentecostes, para que, a partir da experiência do discipulado, ponham-se em “estado de Missão” e impulsionem a Nova Evangelização e a Missão “ad gentes”.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
• Formar discípulos missionários do Evangelho da vida e esperança, para servir à Nova Evangelização e à Missão “ad gentes”.
• Comprometer as famílias cristãs na missão evangelizadora da Igreja, paraque, redescobrindo sua identidade, ponham-se ao serviço da Nova Evangelização e da Missão “ad gentes”.
• Fomentar a dimensão missionária da paróquia como comunidade de comunidades e dos movimentos leigos, para que todo o Povo de Deus assuma sua responsabilidade com a Nova Evangelização e a Missão “ad gentes”.
• Promover o espírito missionário nos ministérios e carismas da Igreja particular, para que todos os seus agentes pastorais, estruturas e instâncias eclesiais sirvam à Nova Evangelização e à Missão “ad gentes”.
• Animar a Igreja na América para que chegue a ser “casa e escola de comunhão” ao serviço da Nova Evangelização e da Missão “ad gentes”.
EIXOS CENTRAIS DO CAM3-Comla8
Queremos preparar e celebrar o 3º Congresso Missionário Americano (CAM 3) e 8º Congresso Missionário Latino-Americano (Comla 8), que, diante dos desafios, esperanças e mudanças que vivemos na Igreja e no mundo na época atual, seja capaz de integrar três realidades, como eixos centrais, do dinamismo eclesial na história:
• Reavivar o acontecimento fundador e inspirador de Pentecostes nas “Igrejas particulares, para que todo o Povo de Deus seja convidado a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente e a abrir-se com confiança ao futuro”, na responsabilidade histórica da Igreja, anunciando o Evangelho (NMI 1).
• Promover, com renovada imaginação e criatividade, a Nova Evangelização no contexto de um mundo globalizado, que tenha o novo “ardor” dos discípulos do Senhor, gerador de “um entusiasmo irrefreável na tarefa de anunciar o Evangelho”; que se abra às novas “expressões” dos santos, homens e mulheres livres no Espírito; e implante novos métodos para a Evangelização, no estilo dos profetas, abertos aos sinais dos tempos (SD 28-30).
• Propiciar que as Igrejas particulares da América se abram aos “imensos horizontes da Missão ‘ad gentes’”, onde Cristo e o seu Evangelho não são conhecidos, e “onde faltam comunidades cristãs suficientemente maduras para encarnar a fé no próprio ambiente e anunciá-la a outros” (RM 31.33).

ÊNFASES DO CAM 3–Comla 8
As ênfases que desejamos imprimir ao nosso próximo Congresso Missionário Americano com a finalidade de fomentar as exigências que advêm do mandado missionário do Cristo Redentor são:
• Partindo da experiência eclesial de Pentecostes, queremos que todo o Continente Americano se declare em “estado de Missão”, para enfrentar o desafio de que a Missão confiada à Igreja “encontra-se ainda nos começos e que nos devemos comprometer com todas as nossas energias ao seu serviço” (RM 1).
Esta opção permitirá fazer de cada Igreja particular o âmbito e contexto da Nova Evangelização e da Missão “ad gentes”, e, ao mesmo tempo, destinatária e protagonista do anúncio de Cristo.
• Partindo da experiência cristológica de Pentecostes, em direção ao desafio da Nova Evangelização, como a melhor proposta para o homem e a mulher do século 21, que sofre as conseqüências da secularização e do materialismo.
Esta opção implicará favorecer, pessoal e comunitariamente, experiências de Deus, de encontro com Cristo e de abertura ao Espírito, que encham de sentido a vida das pessoas e dos povos e os orientem em função do Reino, mediante o anúncio do Evangelho, a promoção humana e a evangelização da cultura.
• Partindo da experiência antropológica de Pentecostes “para a Missão 'ad gentes’ e para a construção do Reino de Deus”.
Esta opção exigirá abrir-se ao mistério de Deus-Uno e Trino que revela seu plano salvífico na vida das pessoas e na história dos povos, preferencialmente aos mais pobres, dirigindo-se de modo especial aos “grupos e ambientes não-cristãos”. A eles deverá ser explícito o anúncio de Cristo e do seu Evangelho, com eles haver-se-á de edificar a Igreja local e promover os valores do Reino (RM 34).
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Sacramento da Penitência

CONFISSÃO
`Dizendo isto soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados,os pecados ser`lhes`ão perdoados; aqueles aos quais os retiverdes, ser`lhes`ão retidos` (Jo 20,22-23).
1446 - Cristo instituiu o sacramento da Penitência para todos os membros pecadores de sua Igreja, antes de tudo para aqueles que, depois do Batismo, cometeram pecado grave e com isso perderam a graça batismal e feriram a comunhão eclesial. É a eles que o sacramento da Penitência oferece uma nova possibilidade de converter`se e de recobrar a graça da justificação. Os Padres da Igreja apresentam este sacramento como `a Segunda tábua (de salvação) depois do naufrágio que é a perda da graça` (Conc. Trento, DS 1542).
1486 - O perdão dos pecados cometidos após o Batismo é concedido por um Sacramento próprio chamado sacramento da Conversão, da Confissão, da Penitência ou da Reconciliação.
1487 - Quem peca fere a honra de Deus e seu amor, sua própria dignidade de homem chamado a ser Filho de Deus e a saúde espiritual da Igreja, da qual cada cristão é uma pedra viva.
1488 - Aos olhos da fé nenhum mal é mais grave do que o pecado, e nada tem conseqüências piores para os próprios pecadores, para a Igreja e para o mundo inteiro.
1489 - Voltar à comunhão com Deus depois de a ter perdido pelo pecado, é um movimento que nasce da graça do Deus misericordioso e solícito pela salvação dos homens. É preciso pedir este dom precioso para si mesmo e também para os outros.
1490 - O movimento de volta a Deus, chamado conversão e arrependimento, implica uma dor e uma aversão aos pecados cometidos e o firme propósito de não mais pecar no futuro; nutre`se da esperança na misericórdia divina.
1491 - O sacramento da penitência é constituído de três atos do penitente e da absolvição dada pelo sacerdote. Os atos do penitente são o arrependimento, a confissão ou manifestação dos pecados ao sacerdote e o propósito de cumprir a penitência e as obras de reparação.Consciência - exame de consciência.
1454 - Convém preparar a recepção deste sacramento (Confissão) fazendo um exame de consciência à luz da Palavra de Deus. Os textos mais adaptados a esse fim devem ser procurados na catequese moral dos evangelhos e das cartas apostólicas: Sermão da Montanha, ensinamentos apostólicos (Rom 12-15; 1 Cor 12-13; Gl 5; Ef 4-6).
1492 - O arrependimento (também chamado contrição) devem inspirar-se em motivos que decorrem da fé. Se o arrependimento estiver embasado no amor de caridade para com Deus, é chamado `perfeito`; se estiver fundado em outros motivos, será `imperfeito`.
1493 - Aquele que quiser obter a reconciliação com Deus e com a Igreja deve confessar ao sacerdote todos os pecados graves que ainda não confessou e que se lembra depois de examinar cuidadosamente sua consciência. Mesmo sem ser necessário em si as confissões das faltas veniais, a Igreja não deixa de recomendá`la vivamente.
1494 - O confessor propõe ao penitente o cumprimento de certos atos de `satisfação` ou de `penitência`, para reparar o prejuízo causado pelo pecado e restabelecer os hábitos próprios ao discípulo de Cristo.
1495 - Somente os sacerdotes que receberam da autoridade da Igreja a faculdade de absolver podem perdoar os pecados em nome de Cristo.
1496 - Os efeitos espirituais do sacramento da Penitência são:A reconciliação com Deus, pela qual o penitente recobra a graça;A reconciliação com a Igreja;A remissão da pena eterna devida aos pecados mortais;A remissão, pelo menos em parte, das penas temporais, seqüelas do pecado;A paz e a serenidade da consciência e a consolação espiritual;O acréscimo de forças espirituais para o combate cristão.
1497 - A confissão individual e integral dos pecados graves, seguida da absolvição, continua sendo o único meio ordinário de reconciliação com Deus e com a Igreja.
1455 - A confissão dos pecados (acusação), mesmo do ponto de vista simplesmente humano, nos liberta e facilita nossa reconciliação com os outros. Pela acusação, o homem encara de frente os pecados dos quais se tornou culpado: assume a responsabilidade deles, assim, abre`se de novo a Deus e à comunhão da Igreja, a fim de tornar possível um futuro novo.
1456 - A declaração dos pecados ao sacerdote constituiu uma parte essencial do sacramento da penitência: `Os penitentes devem, na confissão, enumerar todos os pecados mortais de que têm consciência depois de examinar`se seriamente, mesmo que esses pecados sejam muitos secretos e tenham sido cometidos somente contra os dois últimos preceitos do decálogo (Ex 20,17; Mt 5,28), pois às vezes esses pecados ferem gravemente a alma e são mais prejudiciais do que os outros que foram cometidos à vista e conhecimento de todos` (Conc. Trento, DS 1680):Quando os cristãos se esforçam para confessar todos os pecados que lhes vêm à memória, não se pode duvidar que tenham o intuito de apresentá`los todos ao perdão da misericórdia divina. Os que agem de outra forma tentando ocultar conscientemente alguns pecados não colocam diante da bondade divina nada que ela possa remir por intermédio do sacerdote. Pois, `se o doente insistir em esconder do médico sua ferida, como poderá a medicina curá-lo? (S. Jerônimo, Comen tarius in Ecl 0,11; Conc. Trento, DS 1680).
1457 - Conforme o mandamento da Igreja, `Todo fiel, depois de ter chegado à idade da discrição, é obrigado a confessar fielmente seus pecados graves, pelo menos uma vez por ano` (CDC, cân. 989). Aquele que tem consciência de ter cometido um pecado mortal não deve receber a Sagrada Comunhão, mesmo que esteja profundamente contrito, sem receber previamente a absolvição sacramental (Conc. Trento, DS 1647,1661), a menos que tenha um motivo grave para comungar e lhe seja impossível chegar a um confessor (CDC, cân. 916; CCEO, cân.711). As crianças devem confessar`se antes de receber a Primeira Eucaristia (CDC, cân. 914).1458 - Apesar de não ser estritamente necessária, a confissão das faltas cotidianas (pecados veniais) é vivamente recomendada pela Igreja (Conc. Trento, DS 1680; CDC, cân. 988,2). Com efeito, a confissão regular dos nossos pecados nos ajuda a formar a consciência, a lutar contra nossas más tendências, a ver`nos curados por Cristo, a progredir na vida do Espírito. Recebendo mais freqüentemente, através deste sacramento, o dom da misericórdia do Pai, somos levados a ser misericordiosos como ele (Lc 6, 36):`Quem confessa os próprios pecados está agindo em harmonia com Deus. Deus acusa teus pecados; se tu também os acusas, tu te associas a Deus. O homem e o pecador são, por assim dizer, duas realidades: quando ouves falar do homem, foi Deus quem o fez; quando ouves falar do pecador, é o próprio homem quem o fez. Destrói o que fizeste para que Deus salve o que Ele fez... Quando começas a detestar o que fizeste, é então que tuas boas obras começam, porque acusas tuas más obras. A confissão das más obras é o começo das boas obras. Contribuis para a verdade e consegues chegar à luz` (S.Agostinho, In Jo 12,13).
Confissão - os seus efeitos
1468 - `Toda a força da Penitência reside no fato de ela nos reconstituir na graça de Deus e de nos unir a Ele com a máxima amizade` (Cat. R. 2,5,18). Portanto, a finalidade e o efeito deste sacramento é a reconciliação com Deus. Os que recebem o sacramento da Penitência com coração contrito e disposição religiosa, `podem usufruir da paz e tranqüilidade da consciência, que vem acompanhada de uma intensa consolação espiritual`(Conc. Trento, DS, 1674). Com efeito, o sacramento da Reconciliação com Deus traz consigo uma verdadeira `ressurreição espiritual`, uma restituição da dignidade e dos bens da vida dos filhos de Deus, entre os quais o mais precioso é a amizade de Deus (Lc 15,32). Confissão - reconciliação com a Igreja
1469 - Este sacramento nos reconcilia com a Igreja. O pecado rompe ou quebra a comunhão fraterna. O sacramento da Penitência a repara ou restaura. Neste sentido, ele não cura apenas aquele que é restabelecido na comunhão eclesial, mas também um efeito vivificante sobre a vida da Igreja, que sofreu com o pecado de um de seus membros (1Cor 12,26). Restabelecido ou confirmado na comunhão dos santos, o pecador sai fortalecido pela participação dos bens espirituais de todos os membros vivos do Corpo de Cristo, quer estejam ainda em estado de peregrinação ou já estejam na pátria celeste (LG 48-50):Não devemos esquecer que a reconciliação com Deus tem como conseqüência, por assim dizer, outras reconciliações capazes de remediar outras rupturas ocasionadas pelo pecado: o penitente perdoado reconcilia-se consigo mesmo no íntimo mais profundo de seu ser, onde recupera a própria verdade interior; reconcilia`se com os irmãos que de alguma maneira ofendeu e feriu; reconcilia`se com a Igreja; e reconcilia`se com toda a criação (RP 31).
Confissão - juízo particular antecipado
1470 - Neste sacramento, o pecador, entregando`se ao julgamento misericordioso de Deus, antecipa de certa maneira o julgamento a que será sujeito no fim desta vida terrestre. Pois é agora, nesta vida, que nos é oferecida a escolha entre a vida e a morte, e só pelo caminho da conversão poderemos entrar no Reino do qual somos excluídos pelo pecado grave (1 Cor 5,11; Gl 5, 19-21; Ap 22,15). Convertendo`se a Cristo pela penitência e pela fé, o pecador passa da morte para a vida `sem ser julgado` (Jo 5,24).
Confissão - o sigilo do sacramento
2490 - O sigilo do sacramento da Reconciliação é sagrado e não pode ser traído sob nenhum pretexto. `O sigilo sacramental é inviolável; por isso, não é lícito ao confessor revelar o penitente, com palavras, ou de qualquer outro modo, por nenhuma causa` (CDC, cân. 983,1).Confissão Comunitária - quando pode ser feita.
1483 - Em casos de necessidade grave, pode`se recorrer à celebração comunitária da reconciliação com confissão e absolvição gerais. Esta necessidade grave pode apresentar`se quando há um perigo iminente de morte sem que o ou os sacerdotes tenham tempo suficiente para ouvir a confissão de cada penitente. A necessidade grave pode também apresentar`se quando, tendo`se em vista o número dos penitentes, não havendo confessores suficientes para ouvir devidamente as confissões individuais num tempo razoável, de modo que os penitentes, sem culpa de sua parte, se veriam privados durante muito tempo da graça sacramental ou da sagrada Eucaristia. Nesse caso os fiéis devem ter, para a validade da absolvição, o propósito de confessar individualmente seus pecados no devido tempo (CDC, cân. 962,1). Cabe ao Bispo diocesano julgar`se os requisitos para a absolvição geral existem (CDC, cân. 961). Um grande concurso de fiéis por ocasião das grandes festas ou de peregrinação não constitui caso de tal necessidade grave (CDC, cân. 961,1).
Confissão - mudança com o tempo.
1447 - No curso dos séculos, a forma concreta segundo a qual a Igreja exerceu este poder recebido do Senhor variou muito. Nos primeiros séculos, a reconciliação dos cristãos que haviam cometidos pecados particularmente graves depois do Batismo (por exemplo, a idolatria, o homicídio ou o adultério) estava ligada a uma disciplina bastante rigorosa, segundo a qual os penitentes deviam fazer penitência pública por seus pecados, muitas vezes durante longos anos, antes de receber a reconciliação. A esta `ordem dos penitentes` (que incluía apenas certos pecados graves) só se era admitido raramente e, em certas regiões, só uma vez na vida.No século VII, inspirados na tradição monástica do Oriente, os missionários irlandeses trouxeram para a Europa continental a prática `privada` da penitência que não mais exigida a prática pública e prolongada de obras de penitência antes de receber a reconciliação com a Igreja. O sacramento se realiza daí em diante de uma forma mais secreta entre o penitente e o presbítero. Esta nova prática previa a possibilidade da repetição, abrindo assim o caminho para uma freqüência regular a este sacramento.
1448 - Através das mudanças por que passaram a disciplina e a celebração deste sacramento ao longo dos séculos, podemos discernir sua própria estrutura fundamental que consta de dois elementos igualmente essenciais: de um lado, os atos do homem que se converte sob a ação do Espírito Santo, a saber, a contrição, a confissão e a satisfação; de outro lado, a ação de Deus por intermédio da Igreja. A Igreja que, pelo Bispo e seus presbíteros, concede em nome de Jesus Cristo, o perdão dos pecados e fixa a modalidade da satisfação, ora pelo pecador e faz penitência com ele. Assim o pecador é curado e reintegrado na comunhão eclesial.
Confissão - a forma da absolvição
1449 - A fórmula da absolvição em uso na Igreja latina exprime os elementos essenciais deste sacramento: o Pai das misericórdias é a fonte de todo perdão. Ele opera a reconciliação dos pecadores pela páscoa de seu Filho e pelo dom de seu Espírito, através da oração e ministério da Igreja:`Deus, Pai de misericórdia, que, pela Morte e Ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo` (Ritual Romano, Rito da Penitência).
1498 - Pelas indulgências, os fiéis podem obter para si mesmos e também para as almas do Purgatório a remissão das penas temporais, conseqüências dos pecados.
Consciência - voz de Deus no coração
1776 - `Na intimidade da consciência, o homem descobre uma lei. Ele não a dá a si mesmo. Mas a ela deve obedecer. Chamando`o sempre a amar e fazer o bem e a evitar o mal, no momento oportuno a voz desta lei soa aos ouvidos do coração... É uma lei inscrita por Deus no coração do homem... A consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do homem onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz` (GS 16).
1777 - Presente no coração da pessoa, a consciência moral (Rm 2,14-16) lhe impõe, no momento oportuno, fazer o bem e evitar o mal. Julga, portanto, as escolhas concretas, aprovando as boas e denunciando as más (Rm 1,32). Atesta a autoridade da verdade referente ao Bem supremo, de quem a pessoa sente a atração e acolhe os mandamentos. Quando escuta a consciência moral, o homem pode ouvir Deus, que fala.`A consciência é uma lei do nosso espírito, mas que o ultrapassa nosso espírito, que nos faz imposições, que significa responsabilidade e dever, temor e esperança... É a mensageira daquele que, no mundo da natureza bem como no mundo da graça, nos fala através de um véu, nos instrui e nos governa. A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo`. (Newman, Carta ao Duque de Norfolk,5).
1779 - É importante que cada qual esteja bastante presente a si mesmo para ouvir e seguir a voz de sua consciência. Esta exigência de interioridade é tanto mais necessária quanto a vida nos expõe constantemente a situações que nos alheiam de qualquer reflexão, exame ou concentração sobre nós mesmos: `Volta à tua consciência, interroga`a ...Voltai, irmãos, ao interior, e em tudo o que fizerdes atentai para a testemunha, Deus` (S. Agostinho, In ep. Jo 8,9).
1781 - A consciência permite assumir a responsabilidade dos atos praticados. Se o homem comete o mal, o julgamento justo da consciência pode continuar nele como testemunho da verdade universal do bem e ao mesmo tempo da malícia de sua escolha singular. O veredicto do juízo da consciência continua sendo um penhor de esperança e misericórdia. Atestando a falta cometida, lembra a necessidade de pedir perdão, de praticar novamente o bem e de cultivar sem cessar a virtude com a graça de Deus. Diante dele tranqüilizaremos nosso coração, se o nosso coração nos acusa, porque Deus é maior que nosso coração e conhece todas as coisas (1Jo 3,19-20).
Consciência - precisa ser formada retamente
1783 - A consciência deve ser educada e o juízo moral esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica. Formula seus julgamentos seguindo a razão, de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos a influências negativas e tentados pelo pecado a preferirem o próprio juízo e a recusar os ensinamentos autorizados.
1784 - A educação da consciência é uma tarefa de toda a vida. Desde os primeiros anos alerta a criança para o conhecimento e a prática da lei interior reconhecida pela consciência moral. Uma educação prudente ensina a virtude, preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos sentimentos de culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das faltas humanas. A educação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração.
1785 - Na forma da consciência, a Palavra de Deus é a luz de nosso caminho; é preciso que a assimilemos na fé e na oração e a coloquemos em prática. É preciso ainda que examinemos nossa consciência confrontando`nos com a Cruz do Senhor. Somos assistidos pelos dons do Espírito Santo, ajudados pelo testemunho e conselhos dos outros e guiados pelo ensinamento autorizado da Igreja (DH, 14).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Campanha da Fraternidade de 2008


D.Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São Paulo
Secretário-Geral da CNBB

A Campanha da Fraternidade de 2008 já tem tema: “Fraternidade e defesa da vida”; e o lema é: “escolhe, pois, a vida”. Este tema assume importância sempre maior no Brasil e no mundo em vista das ameaças e agressões constantes à vida, o bem mais importante e precioso sobre a face da terra.

Nas suas múltiplas formas e manifestações, a vida é um bem impagável e indisponível; cada ser vivo manifesta, à sua maneira, a sabedoria e a insondável providência de Deus Criador. Não criamos a vida, mas temos o tremendo poder de destruí-la; e a destruição da vida pelo descuido e a imprudência humanas, ou pela ganância sistemática e cega, é ofensa ao Criador. Muitas formas de agressão ao ambiente, bem como a interferência leviana na natureza dos organismos vivos, coloca em sério risco a existência da muitos seres vivos, vegetais ou animais. Vem ao caso de perguntar: que tipo de mundo e ambiente estamos preparando para as gerações que virão depois de nós?!
Tratando-se da vida humana, as questões tornam-se ainda mais preocupantes. A pobreza extrema e a falta de políticas sociais adequadas deixam a vida humana exposta a situações de risco e precariedade. A violência endêmica e o crime organizado ceifam numerosas vidas humanas, lamentavelmente, muitas delas, em plena flor da juventude! Submetida à lógica do mercado e da vantagem econômica, a vida humana acaba valendo muito pouco. A degradação ambiental, a contaminação e poluição das águas e do ar, em conseqüência de políticas econômicas irresponsáveis, desencadeiam mecanismos que põem em risco a própria sobrevivência da vida no nosso planeta.

É impressionante o número de abortos clandestinos realizados todos os anos no Brasil. São seres humanos inocentes e indefesos rejeitados, aos quais é negada a participação no banquete da vida. E com os abortos clandestinos, tantas mulheres também perdem a vida, em conseqüência de abortos mal-feitos. Legalizar o aborto seria a solução, para salvar a vida de muitas mulheres? É o que alguns pretendem. Mas essa solução seria trágica, cruel e imoral, pois ambas as vidas são preciosas, tanto mais, quanto menos culpa têm a pagar. A vida da mãe e do filho precisa ser preservada. A solução é a educação para a maior valorização da vida humana e para comportamentos sexuais conseqüentes com a grande responsabilidade de transmitir a vida a um novo ser humano.

Ameaça não menos preocupante para a vida humana é a pretensão de legalizar a eutanásia, uma intervenção intencional e direta para suprimir a vida humana. O ser humano, desde o início da história, sempre teve a tentação de se tornar senhor absoluto da vida e da morte; claro, é pretensão dos fortes sobre os mais fracos. E isso não lhe trouxe nada de bom. Só Deus é senhor da vida, porque só ele é capaz de chamar do nada à existência e de dar plenitude à vida humana. Por isso escreveu no coração do homem esta ordem: “não matarás!”

Proteger, defender e promover a vida é tarefa primordial do Estado, sobretudo a vida indefesa e frágil, como a dos seres humanos ainda não-nascidos, das crianças, idosos, pobres, doentes ou pessoas com deficiência. É ação política por excelência, que não poderá orientar-se pela lógica do “salve-se quem puder”, que só beneficiaria os mais fortes; ela requer o envolvimento solidário de todos os cidadãos. A defesa da vida e da dignidade dos outros seres humanos contra toda forma de agressão, prepotência ou aviltamento interessa a toda a família humana; é manifestação suprema de fraternidade.

O lema – “escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19b) – é tomado do livro do Deuteronômio. O povo hebreu, beneficiado pela ação libertadora e salvadora do Deus da vida, é colocado por Moisés diante da grave alternativa: escolher a vida e um futuro esperançoso para si e seus descendentes, permanecendo fiel aos mandamentos de Deus, ou escolher a morte, andando por caminhos de idolatria e servindo a “deuses” fabricados para a própria conveniência. Isso vale para a globalidade das decisões humanas: nossas escolhas têm conseqüências sobre a vida e o futuro. A escolha livre e responsável do respeito aos mandamentos de Deus e do seu desígnio de vida significa bênção, esperança, futuro. O desprezo ao desígnio do Deus da vida e seus mandamentos traz a desgraça, a morte.

Esta é a grande questão posta pela Campanha da Fraternidade de 2008, que será ocasião para refletir sobre a complexa problemática que atinge a vida sobre a terra, em especial, a vida humana. Está em jogo o futuro da vida na Terra, nossa casa comum, e de todos os seus habitantes. Uma solução responsável só poderá ser solidária e fraterna, no pleno respeito ao desígnio de Deus Criador e Senhor da vida.
16.09.2006

O QUE SIGNIFICAM AS CINZAS?

O uso litúrgico das cinzas tem sua origem no Antigo Testamento. As cinzas simbolizam dor, morte e penitência. Por exemplo, no livro de Ester, Mardoqueu se veste de saco e se cobre de cinzas quando soube do decreto do Rei Asuer I (Xerxes, 485-464 antes de Cristo) da Pérsia que condenou à morte todos os judeus de seu império. (Est 4,1). Jó (cuja história foi escrita entre os anos VII e V antes de Cristo) mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas (Jó 42,6). Daniel (cerca de 550 antes de Cristo) ao profetizar a captura de Jerusalém pela Babilônia, escreveu: "Volvi-me para o Senhor Deus a fim de dirigir-lhe uma oração de súplica, jejuando e me impondo o cilício e a cinza" (Dn 9,3). No século V antes de Cristo, logo depois da pregação de Jonas, o povo de Nínive proclamou um jejum a todos e se vestiram de saco, inclusive o Rei, que além de tudo levantou-se de seu trono e sentou sobre cinzas (Jn 3,5-6). Estes exemplos retirados do Antigo Testamento demonstram a prática estabelecida de utilizar-se cinzas como símbolo (algo que todos compreendiam) de arrependimento.
O próprio Jesus fez referência ao uso das cinzas. A respeito daqueles povos que recusavam-se a se arrepender de seus pecados, apesar de terem visto os milagres e escutado a Boa Nova, Nosso Senhor proferiu: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas se teriam arrependido sob o cilício e as cinzas. (Mt 11,21) A Igreja, desde os primeiros tempos, continuou a prática do uso das cinzas com o mesmo simbolismo. Em seu livro "De Poenitentia" , Tertuliano (160-220 DC), prescreveu que um penitente deveria "viver sem alegria vestido com um tecido de saco rude e coberto de cinzas". O famoso historiador dos primeiros anos da igreja, Eusébio (260-340 DC), relata em seu livro A História da Igreja, como um apóstata de nome Natalis se apresentou vestido de saco e coberto de cinzas diante do Papa Ceferino, para suplicar-lhe perdão. Sabe-se que num determinado momento existiu uma prática que consistia no sacerdote impor as cinzas em todos aqueles que deviam fazer penitência pública. As cinzas eram colocadas quando o penitente saía do Confessionário.
Já no período medieval, por volta do século VIII, aquelas pessoas que estavam para morrer eram deitadas no chão sobre um tecido de saco coberto de cinzas. O sacerdote benzia o moribundo com água benta dizendo-lhe: "Recorda-te que és pó e em pó te converterás". Depois de aspergir o moribundo com a água benta, o sacerdote perguntava: "Estás de acordo com o tecido de saco e as cinzas como testemunho de tua penitência diante do Senhor no dia do Juízo?" O moribundo então respondia: "Sim, estou de acordo". Se podem apreciar em todos esses exemplos que o simbolismo do tecido de saco e das cinzas serviam para representar os sentimentos de aflição e arrependimento, bem como a intenção de se fazer penitência pelos pecados cometidos contra o Senhor e a Sua igreja. Com o passar dos tempos o uso das cinzas foi adotado como sinal do início do tempo da Quaresma; o período de preparação de quarenta dias (excluindo-se os domingos) antes da Páscoa da Ressurreição. O ritual para a Quarta-feira de Cinzas já era parte do Sacramental Gregoriano. As primeiras edições deste sacramental datam do século VII. Na nossa liturgia atual da Quarta-feira de Cinzas, utilizamos cinzas feitas com os ramos de palmas distribuídos no ano anterior no Domingo de Ramos. O sacerdote abençoa as cinzas e as impõe na fronte de cada fiel traçando com essas o Sinal da Cruz. Logo em seguida diz : "Recorda-te que és pó e em pó te converterás" ou então "Arrepende-te e crede no Evangelho".
Devemos nos preparar para o começo da Quaresma compreendendo o significado profundo das cinzas que recebemos. É um tempo para examinar nossas ações atuais e passadas e lamentarmo-nos profundamente por nossos pecados. Só assim poderemos voltar nossos corações genuinamente para Nosso Senhor, que sofreu, morreu e ressuscitou pela nossa salvação. Além do mais esse tempo nos serve para renovar nossas promessas batismais, quando morremos para a vida passada e começamos uma nova vida em Cristo.
Finalmente, conscientes que as coisas desse mundo são passageiras, procuremos viver de agora em diante com a firme esperança no futuro e a plenitude do Céu.

Bênção e imposição das cinzas no início da Quaresma(Quarta-feira de cinzas)

Aceitando que nos imponham as cinzas, expressamos duas realidades fundamentais:
Somo criaturas mortais; tomar consciência de nossa fragilidade, de inevitável fim de nossa existência terrestre, nos ajuda a avaliar melhor os rumos que compete dar à nossa vida: "você é pó, e ao pó voltará" (Gn 3, 19).
Somos chamados a nos converter ao Evangelho de Jesus e sua proposta do Reino, mudando nossa maneira de ver, pensar, agir.
Muitas comunidades sem padre assumiram esse rito significativo como abertura da quaresma anual, realizando-o numa celebração da Palavra.
Veja mais embasamentos bíblicos sobre as cinzas através das seguintes passagens: (Nm 19; Hb 9,13); como sinal de transitoriedade (Gn 18,27; Jó 30,19). Como sinal de luto (2Sm 13,19; Sl 102,10; Ap 19,19). Como sinal de penitência (Dn 9,3; Mt 11,21). Faça uma pesquisa através de todas estas passagens bíblicas, prestando a atenção ao texto e seu contexto, relacionando com a vida pessoal, comunitária, social e com o rito litúrgico da Quarta-feira de cinzas.

domingo, 24 de junho de 2007

DECRETO AD GENTES

DECRETO AD GENTES SOBRE A ATIVIDADE MISSIONÁRIA DA IGREJA

PROÉMIO
A vocação missionária da Igreja
1. A Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser «sacramento universal de salvação», (1) por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador (2), procura incansàvelmente anunciar o Evangelho a todos os homens. Já os próprios Apóstolos em que a Igreja se alicerça, seguindo o exemplo de Cristo, «pregaram a palavra da verdade e geraram as igrejas» (3). Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que «a palavra de Deus se propague ràpidamente e seja glorificada (2 Tess. 3,1), e o reino de Deus seja pregado e estabelecido em toda a terra.
No estado actual das coisas, de que surgem novas condições para a humanidade, a Igreja, que é sal da terra e luz do mundo (4), é com mais urgência chamada a salvar e a renovar toda a criatura, para que tudo seja instaurada em Cristo e n'Ele os homens constituam uma só família e um só Povo de Deus.
Por isso, este sagrado Concílio, agradecendo a Deus a grandiosa obra já realizada pelo esforço generoso de toda a Igreja, deseja delinear os princípios da actividade missionária e reunir as forças de todos os fiéis, para que o Povo de Deus, continuando a seguir pelo caminho estreito da cruz, difunda por toda a parte o reino de Cristo, Senhor e perscrutador dos séculos (5), e prepare os caminhos para a sua vinda.
CAPÍTULO I
PRINCÍPIOS DOUTRINAIS
Desígnio do Pai
2. A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na «missão» do Filho e do Espírito Santo (6).
Este desígnio brota do «amor fontal», isto é, da caridade de Deus Pai, que, sendo o Princípio sem Princípio de quem é gerado o Filho e de quem procede o Espírito Santo pelo Filho, quis derramar e não cessa de derramar ainda a bondade divina, criando-nos livremente pela sua extraordinária e misericordiosa benignidade, e depois chamando-nos gratuitamente a partilhar da sua própria vida e glória. Quis ser, assim, não só criador de todas as coisas mas também «tudo em todas as coisas» (1 Cor. 15,28), conseguindo simultâneamente a sua glória e a nossa felicidade. Aprouve, porém, a Deus chamar os homens a esta participação na sua vida, não só de modo individual e sem qualquer solidariedade mútua, mas constituindo-os num Povo em que os seus filhos, que estavam dispersos, se congregassem em unidade (7).
Missão do Filho
3. Este desígnio universal de Deus para a salvação do género humano realiza-se não sòmente dum modo quase secreto na mente humana, ou por esforços, ainda que religiosos, pelos quais os homens de mil maneiras buscam. a Deus a ver se conseguem chegar até Ele ou encontrá-l'O, embora Ele não esteja longe de cada um de nós (cfr. Act. 17, 27); com efeito, estes esforços precisam de ser iluminados e purificados, embora, por benigna determinação da providência de Deus, possam algumas vezes ser considerados como pedagogia ou preparação evangélica para o Deus verdadeiro (8). Para estabelecer a paz ou a comunhão com Ele e uma sociedade fraterna entre os homens, apesar de pecadores, Deus determinou entrar de modo novo e definitivo na história dos homens, enviando o seu Filho na nossa carne para, por Ele, arrancar os homens ao poder das trevas e de satanás (9) e n'Ele reconciliar o mundo consigo (10). Constituiu, portanto, herdeiro de todas as coisas Aquele por quem fizera tudo(11), para n'Ele tudo restaurar (12).
Cristo Jesus, de facto, foi enviado ao mundo como verdadeiro mediador entre Deus e os homens. Como é Deus, n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Col. 2,9); e sendo o novo Adão pela sua natureza humana, é constituído cabeça da humanidade renovada, cheio de graça e de verdade (Jo. l,14). Assim, o Filho de Deus, pelo caminho duma verdadeira Incarnação, veio para fazer os homens participantes da sua natureza divina e, sendo rico, fez-se por nós necessitado para que nos tornássemos ricos da sua pobreza (13). O Filho do Homem não veio para que o servissem, mas para ser ele a servir e para dar até a sua vida em redenção por muitos, isto é, por todos (14). Os santos Padres constantemente proclamam nada estar remido que não tivesse sido primeiro assumido por Cristo (15). Ora ele assumiu por inteiro a natureza humana tal qual ela existe em nós, pobres e miseráveis, rejeitando dela apenas o pecado (16). De si mesmo disse Cristo, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo (cfr. Jo. 10,36): «O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres, a sarar os contritos de coração, a proclamar a libertação dos cativos e a restituir a vista aos cegos» (Lc. 4,18). E outra vez: «Veio o Filho do Homem para buscar e salvar o que estava perdido» (Lc. 19,10).
Aquilo que uma vez foi pregado pelo Senhor ou aquilo que n'Ele se operou para salvação do género humano, deve ser proclamado e espalhado até aos confins da terra (17), começando por Jerusalém (18), de modo que tudo quanto foi feito uma vez por todas, pela salvação dos homens, alcance o seu efeito em todos, no decurso dos tempos.
Missão do Espírito Santo
4. Para isso, precisamente, enviou Cristo o Espírito Santo da parte do Pai, para realizar no interior das almas a sua obra salvadora e impelir a Igreja à sua própria dilatação. Não há dúvida de que o Espírito Santo já actuava no mundo antes de Cristo ser glorificado (19). Contudo, foi no dia de Pentecostes, em que desceu sobre os discípulos para ficar para sempre com eles (20), que a Igreja foi pùblicamente manifestada diante duma grande multidão, que a difusão do Evangelho entre os gentios por meio da pregação . teve o seu início, e que, finalmente, a união dos povos numa catolicidade de fé foi esboçada de antemão na Igreja da nova Aliança, a qual fala em todas as línguas e entende e abraça todas as línguas na sua caridade, superando assim a dispersão de Babel (21). Pelo Pentecostes começaram os «actos dos Apóstolos», como pela descida do Espírito Santo sobre Maria fora concebido Cristo, e como pela descida do mesmo Espírito Santo sobre Cristo, quando orava, fora o Senhor impelido à obra do seu ministério (22). O próprio Senhor Jesus, antes de dar livremente a sua vida pelo mundo, de tal maneira dispôs o ministério apostólico e de tal forma prometeu enviar o Espírito Santo, que a ambos associava na tarefa de levar a cabo sempre e em toda a parte a obra da salvação (23). O Espírito Santo é quem «unifica na comunhão e no ministério, e enriquece com diversos dons hierárquicos e carismáticos» (24) toda a Igreja através dos tempos, dando vida às instituições eclesiásticas (25), sendo como que a alma delas, e instilando nos corações dos fiéis aquele mesmo espírito de missão que animava o próprio Cristo. Por vezes precede visivelmente a acção apostólica (26), como também incessantemente a acompanha e dirige de vários modos (27).
A Igreja enviada de Cristo
5. O Senhor Jesus, logo desde o princípio «chamou a Si alguns a quem Ele quis, e escolheu doze para andarem com Ele e para -os mandar a pregar» (Mc. 3,13) (28). Os Apóstolos foram assim a semente do novo Israel e ao mesmo tempo a origem da sagrada Hierarquia. Depois, realizados já definitivamente em Si, pela sua morte e ressurreição, os mistérios da nossa salvação e da renovação do universo, o Senhor, com todo o poder que adquiriu no céu e na terra (29), antes de subir ao Céu (30) fundou a sua Igreja como sacramento de salvação e enviou os seus Apóstolos a todo o mundo tal qual Ele também tinha sido enviado pelo Pai (31), dando-lhes este mandato: «Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos prescrevi» (Mt. 28, 19-20). «Ide por todo o mundo, proclamai a Boa Nova a toda a criatura. Quem acreditar e for baptizado, será salvo; mas quem não acreditar, será condenado» (Mc. 16,15 ss.). Daí vem à Igreja o dever de propagar a fé e a salvação de Cristo, tanto em virtude do expresso mandamento que dos Apóstolos herdou a Ordem dos Bispos ajudada pelos presbíteros em união com o sucessor de Pedro e sumo pastor da Igreja, como em virtude da vida comunicada aos seus membros por Cristo, «do qual o corpo todo inteiro bem ajustado e coeso por toda a espécie de junturas que o alimentam, com a acção proporcionada a cada membro, realiza o seu crescimento em ordem à própria edificação na caridade» (Ef. 4,16). A missão da Igreja realiza-se pois, mediante a actividade pela qual, obedecendo ao mandamento de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna actual e plenamente presente a todos os homens ou povos para os conduzir à fé, liberdade e paz de Cristo, não só pelo exemplo de vida e pela pregação mas também pelos sacramentos e pelos restantes meios da graça, de tal forma que lhes fique bem aberto caminho livre e seguro para participarem plenamente no mistério de Cristo.
Continuando esta missão e explicitando através da história a missão do próprio Cristo, que foi enviado a evangelizar os pobres, a Igreja, movida pelo Espírito Santo, deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço e da imolação própria até à morte, morte de que Ele saiu vencedor pela sua ressurreição. Foi assim também que todos os Apóstolos caminharam na esperança completando com muitas tribulações e fadigas o que faltava aos trabalhos de Cristo pelo seu corpo, que é a Igreja (32). Muitas vezes, mesmo, a semente foi o sangue dos cristãos (33).
Actividade missionária da Igreja: seus diversos modos
6. Esta tarefa que deve ser levada a cabo pela Ordem dos Bispos presidida pelo sucessor de Pedro e com a oração e a cooperação de toda a Igreja, é uma e a mesma em toda a parte, sejam quais forem os condicionalismos, embora difira quanto ao exercício conforme as circunstâncias. Mas as diferenças que nesta actividade da Igreja se têm de reconhecer, não se originam na natureza íntima da «missão», mas nos condicionalismos em que essa «missão» se exerce.
Esses condicionalismos tanto podem depender da Igreja como dos povos, dos agrupamentos ou até dos indivíduos a quem a «missão,, se dirige. A Igreja, de facto, embora de si possua a totalidade ou à plenitude dos meios de salvação, não actua nem pode actuar sempre e imediatamente com todos eles, mas vai por tentativas e por passos na sua acção e no seu esforço de levar a efeito os desígnios de Deus. As vezes até, depois dum avanço, felizmente lançado, vê-se infelizmente obrigada a deplorar de novo uma regressão, ou, pelo menos, a demorar-se num certo estádio de semi-vitalidade e insuficiência. Quanto aos indivíduos, agrupamentos e povos, a esses só gradualmente os atinge e os penetra, e só assim os traz à plenitude católica. A cada condicionalismo e a cada situação devem corresponder acções apropriadas ou meios aptos.
O nome de «missões» dá-se geralmente àquelas actividades características com que os pregoeiros do Evangelho, indo pelo mundo inteiro enviados pela Igreja, realizam o encargo de pregar o Evangelho e de implantar a mesma Igreja entre os povos ou grupos que ainda não crêem em Cristo. Essas «missões» são levadas a efeito pela actividade missionária e exercem-se ordinàriamente em certos territórios reconhecidos pela Santa Sé. O fim próprio desta actividade missionária é a evangelização e a implantação da Igreja nos povos ou grupos em que ainda não está radicada (34). Assim, a partir da semente da palavra de Deus, é necessário que se desenvolvam por toda a parte igrejas autóctones particulares, dotadas de forças próprias e maturidade, com hierarquia própria unida ao povo fiel, suficientemente providas de meios proporcionados a uma vida cristã plena, contribuindo para o bem da Igreja universal. O meio principal desta implantação é a pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Para o anunciar, enviou o Senhor pelo mundo inteiro os seus discípulos, a fim de que os homens, uma vez renascidos pela palavra de Deus, fossem agregados pelo Baptismo à Igreja, a qual, como corpo do Verbo encarnado, se nutre e vive da palavra de Deus e do pão eucarístico.
Nesta actividade missionária da Igreja dão-se, por vezes, simultâneamente, situações diversas: a de começo ou implantação, primeiro, e a de crescimento ou juventude, depois. Ultrapassadas estas etapas, não acaba, contudo, a acção missionária da Igreja, mas é às igrejas particulares já constituídas que incumbe o dever de a continuar pregando o Evangelho a todos aqueles que ainda tenham ficado de fora. Há a considerar também que as comunidades em que a Igreja vive, não raras vezes e por variadas causas mudam radicalmente, de maneira a poderem daí advir condições de todo novas. Então, deve a Igreja ponderar se tais condicionalismos não exigem de novo a sua actividade missionária.
Mais: por vezes, as circunstâncias são tais que não há possibilidades, por um tempo, de propor directa e imediatamente a mensagem evangélica: então é evidente que podem os missionários e até devem dar ao menos o testemunho da caridade e da beneficência de Cristo, pacientemente, com prudência e ao mesmo tempo grande confiança. Assim, não só prepararão os caminhos ao Senhor mas até o tornarão já de alguma maneira presente.
É, pois, bem de ver como a actividade missionária dimana intimamente da própria natureza da Igreja, cuja fé salvífica propaga, cuja unidade católica dilatando aperfeiçoa, em cuja apostolicidade se apoia, cujo afecto colegial de sua hierarquia exercita, cuja santidade testemunha, difunde e promove. É bem de ver também que a actividade missionária entre gentios difere tanto da actividade pastoral que se exerce com os fiéis, como das iniciativas pela reunificação dos cristãos. Contudo, ambas estas actividades andam estreitamente ligadas à actividade missionária da Igreja (35): pois a divisão dos cristãos prejudica a santíssima causa de pregar o Evangelho a toda a criatura (36) e fecha a muitos o acesso à fé. Por isso, por uma necessidade missionária, todos os baptizados são chamados a unir-se num rebanho para assim poderem dar um testemunho unânime de Cristo, seu Senhor, perante os gentios. Mas se ainda não podem, de completo acordo, dar testemunho duma só fé, é preciso que, ao menos, estejam animados de mútua estima e caridade.
Actividade missionária da Igreja: suas causas e necessidades
7. A razão desta actividade missionária vem da vontade de Deus, que «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Ora há um só Deus, e um só que é mediador de Deus e dos homens, o homem Cristo Jesus, que se deu a si mesmo como preço de resgate por todos» (l Tim. 2, 4-6), «e não há salvação em nenhum outro» (Act. 4,12). Portanto, é preciso que todos se convertam a Cristo conhecido pela pregação da Igreja e que sejam incorporados, pelo Baptismo, a Ele e à Igreja, seu corpo. O próprio Cristo, aliás, ao inculcar por palavras expressas a necessidade da fé e do Baptismo (37), confirmou também, por isso mesmo, a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Baptismo, que é como que a porta de entrada. Por isso, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando que Deus fundou por intermédio de Jesus Cristo a Igreja católica como necessária, não quisessem, apesar disso, entrar nela ou nela perseverar» (38). Por isso também, embora Deus, por caminhos que só Ele sabe, possa conduzir à fé, sem a qual é impossível ser-se-Lhe agradável (39), os homens que ignoram o Evangelho sem culpa sua, incumbem à Igreja, apesar de tudo, a obrigação (40) e o sagrado direito de evangelizar. Daí vem que a actividade missionária conserve ainda hoje e haja de conservar sempre toda a sua eficácia e a sua necessidade.
Por ela incessantemente vai cobrando e organizando as forças para seu crescimento o Corpo místico de Cristo (41). Ao exercício desta actividade são impelidos, sem cessar, os membros da Igreja, pela caridade com que amam a Deus e com que desejam comunicar a todos os homens os bens espirituais tanto da vida presente como da futura.
Finalmente, por esta actividade missionária é Deus plenamente glorificado enquanto os homens por ela recebem, plena e conscientemente, a obra de salvação que Ele em Cristo levou a cabo. E assim se realizam por ela os desígnios de Deus, aos quais Cristo serviu com obediência e amor para glória do Pai que o enviou (42), e para que todo o género humano forme um só Povo de Deus, se una num só corpo de Cristo, e se edifique num só templo do Espírito Santo: o qual, ao restabelecer a concórdia fraterna, vem precisamente ao encontro das aspirações mais íntimas de todos os homens. Finalmente, quando todos os que participam da natureza humana, uma vez regenerados em Cristo pelo Espírito Santo e já na visão unânime da glória de Deus Pai, puderem dizer: «Pai nosso» (43), então se há-de realizar deveras o intento do Criador ao fazer o homem à Sua imagem e semelhança.
Actividade missionária da Igreja na vida e na história humana
8. Também com a própria natureza humana e suas aspirações tem íntima conexão a actividade missionária. Com efeito, ao dar a conhecer Cristo, a Igreja revela, por isso mesmo, aos homens a genuína verdade da sua condição e da sua integral vocação, pois Cristo é o princípio e o modelo da humanidade renovada e imbuída de fraterno amor, sinceridade e espírito de paz, à qual todos aspiram.
Cristo e a Igreja que d'Ele dá testemunho pela pregação evangélica, transcendem todos os particularismos de estirpe ou de nação e, por isso, não podem ser considerados estranhos a ninguém e em nenhuma parte (44). É próprio Cristo é aquela verdade e aquele caminho que a pregação evangélica a todos abre ao levar aos ouvidos de todos as palavras que Ele mesmo disse: «Arrependei-vos e crede no Evangelho» (Mc. 1,15). Porém, como quem não crê já está julgado (45), as palavras de Cristo são, ao mesmo tempo, palavras de juízo e de graça, de morte e de vida. n que só infligindo a morte ao que é velho podemos ter acesso à novidade de vida: e isto, que vale, em primeiro lugar, das pessoas, vale também dos diversos bens deste mundo que estão marcados tanto pelo pecado do homem como pela bênção de Deus: «porque todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus» (Rom. 3,23). Por si mesmo e por próprias forças não há ninguém que se liberte do pecado e se eleve acima de si mesmo, ninguém absolutamente que se liberte a si mesmo da sua enfermidade, da sua solidão ou da sua escravidão (46), mas todos precisam de Cristo como modelo, mestre, libertador, salvador, vivificador. De facto, na história humana, mesmo sob o ponto de vista temporal, o Evangelho foi um fermento de liberdade e de progresso e apresenta-se sempre como fermento de fraternidade, de unidade e de paz. Não é sem razão, por isso, que Cristo é celebrado pelos fiéis como «o esperado das nações e o seu salvador» (47).
Carácter escatológico da actividade missionária da Igreja
9. A actividade missionária desenrola-se entre o primeiro e o segundo advento do Senhor, em que a Igreja há-de ser reunida dos quatro ventos como uma colheita, no reino de Deus (48). Mas antes de o Senhor vir, tem de ser pregado o Evangelho a todos os povos (49).
A actividade missionária não é outra coisa, nem mais nem menos, que a manifestação ou epifania dos desígnios de Deus e a sua realização no mundo e na sua história, na qual Deus, pela missão, manifestamente vai tecendo a história da salvação. Pela palavra da pregação e pela celebração dos sacramentos de que a Eucaristia é o centro e a máxima expressão, torna presente a Cristo, autor da salvação. Por outro lado, tudo o que de verdade e de graça se encontrava já entre os gentios como uma secreta presença de Deus, expurga-o de contaminações malignas e restitui-o ao seu autor, Cristo, que destrói o império do demónio e afasta toda a malícia dos pecados. O que de bom há no coração e no espírito dos homens ou nos ritos e culturas próprias dos povos, não só não se perde, mas é purificado, elevado e consumado para glória de Deus, confusão do demónio e felicidade do homem (50). A actividade missionária tende assim para a plenitude escatológica (51): por ela, com efeito, se estende, segundo as dimensões e os tempos que o Pai fixou com o seu próprio poder (52), o Povo de Deus a quem foi dito profèticamente: «Dilata o acampamento das tuas tendas e estende as telas das tuas barracas! Não te acanhes» (Is. 54,2) (53); por ela cresce o Corpo místico até constituir esse homem perfeito, na força da idade, que realiza a plenitude de Cristo (54); por ela se levanta e se vai edificando sobre os alicerces dos Apóstolos e dos profetas e com o próprio Cristo Jesus por pedra angular (Ef. 2,20), o templo espiritual onde Deus é adorado em espírito e verdade (55).
CAPÍTULO II
A OBRA MISSIONÁRIA EM SI MESMA
Introdução: A actividade missionária da Igreja no mundo actual
10. Enviada por Cristo a manifestar e a comunicar a todos os homens e povos a caridade de Deus, a Igreja reconhece que tem de levar a cabo uma ingente obra missionária. É que, na verdade, dois biliões de homens, número que cresce de dia para dia, em grandes e determinados agrupamentos, unidos por laços estáveis de vida cultural, por antigas tradições religiosas, por estreitos vínculos de relações sociais, ou ainda não receberam a mensagem do Evangelho, ou mal ouviram falar dela; dentre eles, uns seguem alguma das grandes religiões, outros permanecem estranhos ao conhecimento de Deus, outros negam expressamente a sua existência, ou até mesmo a atacam. A fim de poder oferecer a todos o mistério de salvação e a vida trazida por Deus, a Igreja deve inserir-se em todos esses agrupamentos, impelida pelo mesmo movimento que levou o próprio Cristo, na incarnação, a sujeitar-se às condições sociais e culturais dos homens com quem conviveu.
Art. 1
O TESTEMUNHO CRISTÃO
Testemunho de vida e diálogo
11. A Igreja tem de estar presente a estes agrupamentos humanos por meio dos seus filhos que entre eles vivem ou a. eles são enviados. Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo da vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Baptismo, e a virtude do Espírito Santo por quem na Confirmação foram robustecidos, de tal modo que os demais homens, ao verem as suas boas obras, glorifiquem o Pai (1) e compreendam, mais plenamente o sentido genuíno da vida humana e o vínculo universal da comunidade humana.
Para poderem dar frutuosamente este testemunho de Cristo, unam-se a esses homens com estima e caridade, considerem-se a si mesmos como membros dos agrupamentos humanos em que vivem, e participem na vida cultural e social através dos vários intercâmbios e problemas da vida humana; familiarizem-se com as suas tradições nacionais e religiosas; façam assomar à luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo neles adormecidas; mas atendam, ao mesmo tempo, à transformação profunda que se opera entre os povos e trabalhem por que os homens do nosso tempo não dêem tanta importância à ciência e tecnologia do mundo moderno que se alheiem das coisas divinas, mas, antes pelo contrário, despertem para um desejo mais profundo da verdade e da caridade reveladas por Deus. Assim como o próprio Cristo perscrutou o coração dos homens e por meio da sua conversação verdadeiramente humana os conduziu à luz divina, assim os seus discípulos, profundamente imbuídos do Espírito de Cristo, tomem conhecimento dos homens no meio dos quais vivem, e conversem com eles, para que, através dum diálogo sincero e paciente, eles aprendam as riquezas que Deus liberalmente outorgou aos povos; mas esforcem-se também por iluminar estas riquezas com a luz evangélica, por libertá-las e restituí-las ao domínio de Deus Salvador.
Presença da caridade
12. A presença dos cristãos nos agrupamentos humanos seja animada daquela caridade com que Deus nos amou, e com a qual quer que também nós nos amemos uns aos outros (2).
Efectivamente, a caridade cristã a todos se estende sem discriminação de raça, condição social ou religião; não espera qualquer lucro ou agradecimento. Portanto, assim como Deus nos amou com um amor gratuito, assim também os fiéis, pela sua caridade, sejam solícitos pelos homens, amando-os com o mesmo zelo com que Deus veio procurá-los. E assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do reino e Deus (3), do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição, de modo especial cm os pobres e aflitos, e de bom grado por eles gasta as forças (4). Participa nas suas alegrias e dores, conhece as suas aspirações e os problemas da sua vida e sofre com eles nas ansiedades da morte, trazendo-lhes a paz e a luz do Evangelho.
Trabalhem e colaborem os cristãos com todos os outros na recta ordenação dos problemas económicas e sociais. Dediquem-se, com cuidado especial, à educação das crianças e da juventude por meio das várias espécies de escolas, as quais hão-de ser consideradas não só como meio exímio de formação e promoção da juventude cristã, mas também, simultâneamente, como serviço da maior importância para os homens, e em particular para as nações em vias de desenvolvimento, a fim de elevar a dignidade do homem e preparar condições de vida mais humanas. Além disso, tomem parte nos esforços dos povos que, lutando contra a fome, a ignorância e a doença, se afadigam por melhorar as condições de vida e por assegurar a paz no mundo. Nesta actividade prestem os fiéis, com prudência, a sua colaboração efectiva às iniciativas promovidas pelas instituições particulares e públicas, pelos governos, pelos organismos internacionais, pelas diversas comunidades cristãs e religiões não-cristãs.
A Igreja, porém, não quer, de maneira nenhuma, imiscuir-se no governo da cidade terrena. Nenhuma outra autoridade reclama para si senão a de, com a ajuda de Deus, estar ao serviço dos homens pela caridade e pelo serviço fiel (5).
Intimamente unidos com os homens na vida e no trabalho, os discípulos de Cristo esperam oferecer-lhes o verdadeiro testemunho de Cristo e trabalhar na salvação deles, mesmo quando não podem anunciar plenamente a Cristo. Porque não procuram o progresso e a prosperidade material dos homens, mas promovem a sua dignidade e fraterna união, ensinando as verdades religiosas e morais, que Cristo esclareceu com a Sua luz. Deste modo, vão abrindo pouco a pouco o acesso mais pleno a Deus. Assim, os homens são auxiliados na aquisição da salvação pela caridade para com Deus e para com o próximo, e começa a brilhar o mistério de Cristo, no qual apareceu o homem novo que foi criado segundo Deus, (cfr. Ef. 4,24), e no qual se revela a caridade divina.
Art. 2
A PREGAÇÃO DO EVANGELHO E A REUNIÃO DO POVO DE DEUS
Evangelização e conversão
13. Sempre que Deus abre a porta da palavra para anunciar o mistério de Cristo (7) a todos os homens (8), com confiança e constância (9) seja anunciado (10) o Deus vivo, e Aquele que Ele enviou para a salvação de todos, Jesus Cristo(11), para que os não-cristãos, sob a inspiração interior do Espírito Santo (12), se convertam livremente à fé no Senhor, e adiram sinceramente Aquele que, sendo «caminho, verdade e vida» (Jo. 14,6), cumula todas as suas esperanças espirituais, mais ainda, supera-as infinitamente. Esta conversão há-de considerar-se como inicial, mas suficiente para o homem cair na conta de que, arrancado ao pecado, é introduzido no mistério do amor de Deus, que o chama a entabular relações pessoais consigo em Cristo. Pois, sob a acção da graça de Deus, o neo-convertido inicia o caminho espiritual pelo qual, comungando já pela fé no mistério da morte e ressurreição, passa do homem velho ao homem novo que tem em Cristo a sua perfeita realização (13).
Esta passagem, que traz consigo uma mudança progressiva de mentalidade e de costumes, deve manifestar-se e desenvolver-se, com as suas consequências sociais, durante o tempo do catecumenado. Porque o Senhor em que acreditamos, é sinal de contradição (14), o homem convertido experimenta frequentemente rupturas e separações, mas também alegrias que Deus concede sem medida (15). A Igreja proíbe severamente obrigar quem quer que seja a abraçar a fé, ou induzi-lo e atraí-lo com processos indiscretos, do mesmo modo que reclama com vigor o direito de ninguém ser afastado da fé por meio de vexações iníquas (16).
Em conformidade com o antiquíssimo costume da Igreja, investiguem-se os motivos da conversão e, se for necessário, purifiquem-se.
Catecumenado e iniciação cristã
14. Aqueles que receberam de Deus por meio da Igreja a fé em Cristo (17), sejam admitidos ao catecumenado, mediante a celebração de cerimónias litúrgicas; o catecumenado não é mera exposição de dogmas e preceitos, mas uma formação e uma aprendizagem de toda a vida cristã; j prolongada de modo conveniente, por cujo meio os discípulos se unem comi Cristo seu mestre. Por conseguinte, sejam os catecúmenos conveniente: mente iniciados no mistério da salvação, na prática dos costumes evangélicos, e com ritos sagrados, a celebrar em tempo sucessivos (18), sejam introduzidos na vida da fé, da liturgia e da caridade do Povo de Deus.
Em seguida, libertos do poder das trevas pelos sacramentos da iniciação cristã (19), mortos com Cristo e com Ele sepultados e ressuscitados (20) recebem o Espírito (21) de adopção de filhos e celebram com todo o Povo de Deus o memorial da morte e ressurreição do Senhor.
É de desejar que a liturgia do tempo quaresmal e pascal seja reformada de maneira a preparar os corações dos catecúmenos para a celebração do mistério pascal, durante cujas solenidades eles são regenerados para Cristo pelo Baptismo.
Esta iniciação cristã realizada no catecumenado deve ser obra não apenas dos catequistas ou sacerdotes, mas de toda a comunidade dos fiéis, especialmente dos padrinhos, de forma que desde o começo os catecúmenos sintam que pertencem ao Povo de Deus. Visto que a vida da Igreja é apostólica, os catecúmenos devem igualmente aprender a cooperar activamente; pelo testemunho da sua vida e a profissão da sua fé, na evangelização e na construção da Igreja.
Enfim, o estado jurídico dos catecúmenos deve ser fixado claramente no novo Código. Pois eles estão já unidos à Igreja (22), já são da casa de Cristo (23), e, não raro, eles levam já uma vida de fé, de esperança e de caridade.
Art. 3
A FORMAÇÃO DA COMUNIDADE CRISTÃ
Formação da comunidade cristã
15. O Espírito Santo, que chama todos os homens a Cristo pelas sementes do Verbo e pela pregação do Evangelho e suscita nos corações a homenagem da fé, quando gera no seio da fonte baptismal para uma nova vida os que crêem em Cristo, reune-os num só Povo de Deus que é graça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido»
Portanto, os missionários, colaboradores de Deus (25), devem fazer nascer comunidades de fiéis que, levando uma vida digna da vocação que receberam (26), sejam tais que possam exercer as funções a elas confiadas por Deus: sacerdotal, profética e real. E deste modo que uma comunidade cristã se torna sinal da presença de Deus no mundo: pelo sacrifício eucarístico, com efeito, passa incessantemente com Cristo ao Pai (27), alimentada cuidadosamente pela palavra de Deus (28) dá testemunho de Cristo (29), caminha, enfim, na caridade e arde em espírito apostólico (30).
Uma comunidade cristã deve ser constituída desde o começo de tal maneira que possa, na medida do possível, prover por si mesma às suas necessidades. Esta comunidade de fiéis, dotada das riquezas culturais da sua própria nação, deve estar profundamente enraizada no povo: devem desabrochar as famílias penetradas do espírito evangélico (31) e ajudadas por escolas idóneas; devem organizar-se associações e agrupamentos por meio dos quais o apostolado dos leigos possa penetrar do espírito evangélico toda a sociedade. A caridade deve brilhar, enfim, entre os católicos de rito diferente (32).
Deve também nutrir-se entre os néofitos o espírito ecuménico, pensando justamente que os irmãos que crêem em Cristo são discípulos de Cristo, regenerados pelo Baptismo, participantes de numerosos bens do Povo de Deus. Quanto o permitirem as condições religiosas, deve promover-se a acção ecuménica, de sorte que, banindo toda a aparência de indiferentismo, de confusionismo e odiosa rivalidade, os católicos colaborem com os irmãos separados, em conformidade com as disposições do decreto sobre o Ecumenismo, por meio da comum profissão de fé em Deus e em Jesus Cristo diante dos gentios, na medida do possível, e pela cooperação em questões sociais e técnicas, culturais e religiosas. Colaborem, sobretudo, por amor de Cristo, seu Senhor comum: que o Seu nome os una! Esta colaboração deve ser estabelecida não sòmente entre os indivíduos, mas também, a juízo do Ordinário do lugar, entre igrejas ou comunidades eclesiais e as suas obras.
Os cristãos, provenientes de todos os povos e reunidos em Igreja, «não se distinguem dos outros homens nem pelo país, nem pela língua, nem pela organização política» (33); devem, por isso, viver para Deus e para Cristo segundo os usos do seu próprio povo; cultivem verdadeira e eficazmente, como bons cidadãos, o amor da pátria, mas evitem absolutamente o desprezo pelas outras raças, o nacionalismo exagerado, e promovam o amor universal dos homens.
Para conseguir estes resultados, têm grandíssima importância e são dignos de um interesse particular os leigos, isto é, os fiéis cristãos que, incorporados em Cristo pelo Baptismo, vivem no mundo. A eles pertence, depois de penetrados do Espírito de Cristo, animar interiormente, à maneira de fermento, as realidades temporais e dispô-las para que se realizem sempre segundo Cristo (34).
Não basta, porém, que o povo cristão esteja presente e estabelecido num país; não basta também que ele exerça o apostolado do exemplo; está estabelecido, está presente com esta finalidade: anunciar Cristo aos seus concidadãos não-cristãos pela palavra e pela acção, e ajudá-los a receber plenamente a Cristo.
Ora bem: para a implantação da Igreja e para o desenvolvimento da comunidade cristã, são necessários ministérios diversos, que, suscitados pelo apelo divino no seio da mesma comunidade dos fiéis, devem ser encorajados e cultivados por todos com diligente cuidado; entre estes ministérios, há as funções dos sacerdotes, dos diáconos e dos catequistas, e a acção católica. De modo análogo, os religiosos e as religiosas desempenham, quer pela oração quer pela acção, um serviço indispensável para enraizar nos corações o reino de Cristo, fortificá-lo e estendê-lo mais ao longe.
Constituição do clero local
16. Com imensa alegria, a Igreja dá graças pelo dom inapreciável da vocação sacerdotal que Deus concedeu a tão avultado número de jovens entre os povos recentemente convertidos a Cristo. A Igreja, efectivamente, lança raízes mais vigorosas em cada agrupamento humano, quando as várias comunidades de fiéis tiram dentre os seus membros os próprios ministros da salvação na ordem dos Bispos, dos presbíteros e dos diáconos, que servem os seus irmãos, de tal sorte que as jovens igrejas adquirem a pouco e pouco a estrutura diocesana com clero próprio.
Aquilo que foi decidido por este Concílio a propósito da vocação e da formação sacerdotal, observe-se religiosamente nos lugares em que a Igreja começa a implantar-se e também nas novas igrejas. Preste-se muita atenção ao que foi dito sobre a formação espiritual intimamente unida à formação doutrinal e pastoral da vida vivida segundo o espírito do Evangelho, sem consideração de vantagem pessoal ou interesse familiar, e sobre a formação do sentido íntimo do mistério da Igreja. Assim aprenderão de maneira maravilhosa a consagrar-se inteiramente ao serviço do corpo de Cristo e à obra do Evangelho, a aderir ao próprio Bispo como fiéis colaboradores e a prestar leal colaboração aos seus irmãos (35).
Para conseguir este fim geral, toda a formação dos alunos deve ser orientada à luz do mistério da salvação, como vem exposto na Escritura. Descubram e vivam este mistério de Cristo e da salvação dos homens presente na Liturgia (36).
Estas exigências comuns da formação sacerdotal, que é também pastoral e prática, devem harmonizar-se, segundo as disposições do Concílio (37), com o desejo de ir ao encontro do modo particular de pensar e de agir da sua própria nação. Os espíritos dos alunos devem, pois, abrir-se e cultivar-se para bem conhecerem e poderem apreciar a cultura do seu país; nas disciplinas filosóficas e teológicas, devem tomar conhecimento das relações que há entre as tradições e as religiões nacionais e a religião cristã (38). Do mesmo modo, a formação sacerdotal deve ter em vista as necessidades pastorais da região: os alunos devem aprender a história, a finalidade e o método da acção missionária da Igreja, e as condições particulares, sociais, económicas e culturais do seu próprio povo. Devem ser educados no espírito de ecumenismo e convenientemente preparados para o diálogo fraterno com os não-cristãos (39). Tudo isto pede que os estudos para o sacerdócio sejam realizados, quanto possível, em ligação contínua e convivência com a gente do próprio país (40). Procure-se enfim, dar, uma formação que prepare para a ordenada administração eclesiástica, e até mesmo a económica.
Dever-se-á também escolher sacerdotes capazes que, depois de alguma experiência pastoral, realizem estudos superiores em Universidades, mesmo estrangeiras, sobretudo em Roma, e em outros Institutos científicos, de sorte que as igrejas jovens tenham à sua disposição sacerdotes do clero local, dotados de ciência e experiência convenientes, para desempenharem as funções eclesiásticas de maior responsabilidade.
Nos lugares em que as Conferências episcopais julgarem oportuno, restabeleça-se a ordem do diaconado como estado de vida permanente, em conformidade com as normas da Constituição sobre a Igreja (41). É útil, com efeito, que para exercer um ministério verdadeiramente diaconal, quer pregando a palavra de Deus como catequistas, quer dirigindo em nome do pároco e do Bispo comunidades cristãs dispersas, quer exercendo a caridade em obras sociais ou caritativas, sejam fortificados pela imposição das mãos, transmitida desde o tempo dos Apóstolos, e mais estreitamente unidos ao altar, para que desempenhem o seu ministério mais eficazmente, por meio da graça sacramental do diaconado.
Formação dos catequistas
17. De modo semelhante, é digno de elogio aquele exército com tantos méritos na obra das missões entre pagãos, o exército dos catequistas, homens e mulheres, que, cheios do espírito apostólico, prestam com grandes trabalhos uma ajuda singular e absolutamente necessária à expansão da fé e da Igreja.
Hoje em dia, em razão da escassez de clero para evangelizar tão grandes multidões e exercer o ministério pastoral, o ofício dos catequistas tem muitíssima importância. A sua formação deve, portanto, fazer-se de maneira tão acomodada ao progresso cultural, que eles possam desempenhar o mais perfeitamente possível o seu múnus como colaboradores eficazes da ordem sacerdotal, múnus esse que se vai complicando com novas e maiores obrigações.
É preciso, portanto, multiplicar as escolas diocesanas e regionais, nas quais os futuros catequistas estudem cuidadosamente a doutrina católica, sobretudo em matéria bíblica e litúrgica, assim como o método catequético e a prática pastoral, e se formem na moral cristã (42), exercitando-se sem desfalecimentos na piedade e na santidade de vida. Além disso, devem organizar-se reuniões ou cursos de actualização nas disciplinas e nas artes úteis ao seu ministério, e de renovação e robustecimento da sua vida espiritual. Por outro lado, aos que se dedicam inteiramente a esta ocupação, dever-se-á proporcionar, por uma justa remuneração, conveniente nível de vida e segurança social (43).
É de desejar que se proveja, de maneira conveniente, à formação e sustentação dos catequistas, por meio de subsídios especiais da sagrada Congregação de «Propaganda Fide». Parecendo necessário e conveniente, funde-se uma Obra para os catequistas.
Além disso, as igrejas serão reconhecidas ao trabalho generoso dos catequistas auxiliares, cuja ajuda lhes será indispensável. São eles que presidem às orações nas comunidades e ensinam a doutrina. É preciso, pois, tratar da sua conveniente formação doutrinal e espiritual. Por outro lado, é de desejar que, onde parecer oportuno, seja confiada pùblicamente, durante a celebração duma acção litúrgica, a missão canónica aos catequistas que tiverem recebido a devida formação, a fim de. estarem com maior autoridade ao serviço da fé junto do povo.
Promoção da vida religiosa
18. Desde o período da implantação da Igreja, deve ter-se o cuidado de promover a vida religiosa; esta não sòmente presta ajuda preciosa e absolutamente necessária à actividade missionária, mas, por uma consagração mais íntima feita a Deus na Igreja, manifesta e significa com esplendor também a natureza íntima da vocação cristã. (44)
Os Institutos religiosos que trabalham na implantação da Igreja, profundamente impregnados das riquezas místicas que são a glória da tradição religiosa da Igreja, devem esforçar-se por as exprimir e as transmitir, segundo o génio e carácter de cada povo. Devem examinar como é que as tradições ascéticas e contemplativas, cujos germes foram, algumas vezes, espalhados por Deus nas civilizações antigas, antes da pregação do Evangelho, podem ser assumidas pela vida religiosa cristã.
Devem cultivar-se nas igrejas jovens as diversas formas de vida religiosa para que mostrem os diversos aspectos da missão de Cristo e da vida da Igreja, e se dediquem às várias obras pastorais, e preparem convenientemente os seus membros para as desempenhar. No entanto, procurem os Bispos nas Conferências que não se multipliquem Congregações com o mesmo fim apostólico, com prejuízo da vida religiosa e do apostolado.
São dignas de menção especial as diversas iniciativas em vista ao enraizamento da vida contemplativa; certos Institutos, guardando os elementos essenciais da instituição monástica, trabalham por implantar a riquíssima tradição da sua Ordem; outros voltam às formas mais simples do monaquismo antigo. Todos, no entanto, devem procurar uma autêntica adaptação às condições locais. Uma vez que a vida contemplativa pertence à plenitude da presença da Igreja, é preciso que ela seja instaurada por toda a parte nas novas igrejas.
CAPÍTULO III
AS IGREJAS PARTICULARES
Incremento das Igrejas jovens
19. A obra de implantação da Igreja num determinado agrupamento humano atinge em certa medida o seu termo, quando a comunidade dos fiéis, enraizada já na vida social e adaptada à cultura local, goza de alguma estabilidade e firmeza: com recursos próprios, ainda que insuficientes, de clero local, de religiosos e de leigos; possui já os ministérios e instituições necessárias para viver e desenvolver a vida do Povo de Deus, sob a orientação do próprio Bispo.
Nestas igrejas jovens, a vida do Povo de Deus deve adquirir a maturidade em todos os sectores da vida cristã, renovada segundo as normas deste Concílio: os grupos de fiéis tornam-se de dia para dia mais conscientemente comunidades de fé, de liturgia e de caridade; pela sua actividade cívica e apostólica, os leigos trabalham por instaurar na sociedade uma ordem de caridade e de justiça; os meios de comuniçação social são empregados de maneira oportuna e prudente; graças a uma vida verdadeiramente cristã, as famílias tornam-se viveiros do apostolado dos leigos e das vocações sacerdotais e religiosas. A fé, enfim, é ensinada por meio duma catequese adaptada, é celebrada numa liturgia conforme ao génio do povo, e, por uma legislação canónica conveniente, passa para as instituições e para os costumes locais.
Os Bispos, cada um com o seu presbitério, cada vez mais penetrados do sentido de Cristo e da Igreja, devem sentir e viver com a Igreja universal. Deve manter-se íntima a comunhão das igrejas jovens com a Igreja inteira, cujos elementos tradicionais elas devem juntar à sua cultura própria, para fazer crescer a vida do Corpo místico por meio de trocas mútuas(1). Por isso, devem cultivar-se os elementos teológicos, psicológicos e humanos que podem contribuir para fomentar este sentido de comunhão com a Igreja universal.
Estas igrejas, porém, não raro situadas nas regiões mais pobres do globo, vêem-se ainda a braços com insuficiência, ordinàriamente muito grave, de sacerdotes, e com falta de recursos materiais. Por isso, têm muitíssima necessidade de que a acção missionária continuada da Igreja inteira lhes subministre os socorros que sirvam, antes de mais, para o desenvolvimento da igreja local e para a maturidade da vida cristã. Esta acção missionária deve atender também às igrejas fundadas há longa data que se encontram em estado de retrocesso ou decadência.
Estas igrejas, todavia, devem renovar o seu zelo pastoral comum e as obras oportunas para aumentar em número, discernir com mais segurança e cultivar com mais eficácia as vocações para o clero diocesano e para os Institutos religiosos (2), de maneira que, pouco a pouco, possam prover às suas próprias necessidades e auxiliar as outras.
A sua actividade missionária
20. A igreja particular, pela obrigação que tem de representar o mais perfeitamente possível a Igreja universal, deve ter consciência que foi também enviada aos habitantes do mesmo território que não crêem em Cristo, a fim de ser, pelo testemunho da vida de cada um dos fiéis e de toda a comunidade, um sinal a mostrar-lhes Cristo.
Além disso, para o Evangelho chegar a todos, é indispensável o ministério da palavra. É preciso que o Bispo seja, antes de mais, um pregador da fé, que conduza a Cristo novos discípulos (3). Para se desempenhar, como convém, desta nobre incumbência, deve conhecer bem a situação do seu rebanho, as opiniões íntimas dos seus concidadãos a respeito de Deus, tomando cuidadosamente em linha de conta as mudanças introduzidas pela urbanização, migração e indiferentismo religioso.
Nas igrejas jovens, os sacerdotes nativos empreendam com ardor a obra da evangelização, organizando uma acção comum com os missionários estrangeiros, com os quais formam um presbitério único, unido debaixo da autoridade do Bispo, não só para apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, mas também para pregar o Evangelho àqueles que estão fora. Eles devem mostrar-se prontos e, havendo ocasião, oferecer-se com fervor ao Bispo para empreender o trabalho missionário nas regiões afastadas e abandonadas da sua própria diocese, ou em outras dioceses.
Do mesmo zelo em relação aos seus concidadãos, sobretudo os mais pobres, devem sentir-se animados os religiosos e as religiosas, bem como os leigos.
As Conferências episcopais procurem organizar, em tempos. determinados, cursos de renovação bíblica, teológica, espiritual e pastoral, para que, na variedade e mudança de situações, o clero adquira um conhecimento mais pleno da ciência teológica e dos métodos pastorais.
Quanto ao mais, observe-se religiosamente o que este Concílio determinou, especialmente no decreto sobre o ministério e a vida dos sacerdotes.
Para que esta obra missionária duma igreja particular possa ser levada a bom termo, é necessário que haja ministros capazes, oportunamente preparados em conformidade com o condicionalismo de cada igreja. Uma vez que os homens se reúnem cada vez mais em grupos, convém absolutamente que as Conferências episcopais tenham planos comuns sobre . o diálogo a instituir com esses grupos. Se em certas regiões se encontram grupos de homens, que são impedidos de abraçar a fé católica pelo facto de não poderem adaptar-se à forma particular que a Igreja aí tenha revestido, é de desejar que se proveja de maneira especial a essa situação (4), até que todos os cristãos possam ser congregados numa só comunidade. Os Bispos devem chamar para as suas dioceses ou receber de boa vontade os missionários de que a Sé Apostólica puder dispor para esta finalidade, e favorecer eficazmente as suas iniciativas.
Para que este zelo missionário comece a florescer entre os naturais do país, convém absolutamente que as igrejas jovens participem efectivamente na missão universal da Igreja, enviando elas também missionários a anunciar o Evangelho por toda a terra, ainda que elas sofram de falta de clero. A comunhão com a Igreja inteira estará, de certo modo, consumada quando, também elas, tomarem parte activa na acção missionária junto de outros povos.
Promoção do apostolado dos leigos
21. A Igreja não está fundada verdadeiramente, nem vive plenamente, nem é o sinal perfeito de Cristo entre os homens se, com a Hierarquia, não existe e trabalha um laicado autêntico. De facto, sem a presença activa dos leigos, o Evangelho não pode gravar-se profundamente nos espíritos, na vida e no trabalho de um povo. Por isso, é necessário desde a fundação da Igreja prestar grande atenção à formação dum laicado cristão amadurecido.
Os leigos pertencem, ao mesmo tempo, ao Povo de Deus e à sociedade civil: pertencem, por um lado, à nação em que nasceram, de cujos tesouros culturais participam pela educação, a cuja vida estão ligados por múltiplos laços sociais, para cujo progresso cooperam com o seu esforço nas suas profissões, cujos problemas sentem e procuram resolver como próprios; pertencem também a Cristo, porque foram regenerados na Igreja pela fé e pelo Baptismo, a fim de serem de Cristo(5) pela renovação da vida e acção, para que em Cristo tudo seja submetido a Deus, e, enfim, Deus seja tudo em todos (6).
O principal dever deles, homens e mulheres, é o testemunho de Cristo, que eles têm obrigação de dar, pela sua vida e palavras, na família, no grupo social, no meio profissional. É necessário que se manifeste neles o homem novo criado segundo Deus em justiça e santidade verdadeira (7). Devem exprimir esta novidade de vida no meio social e cultural da sua pátria, em conformidade com as tradições nacionais. Devem conhecer esta cultura, purificá-la, conservá-la, desenvolvê-la segundo as novas situações, enfim, dar-lhe a sua perfeição em Cristo, a fim que a fé em Cristo e a vida da Igreja deixem de ser estranhas à sociedade em que vivem mas comecem a penetrá-la e a transformá-la. Devem unir-se aos seus concidadãos com caridade sincera, a fim de que no seu comportamento apareça um novo laço de unidade e de solidariedade universal, haurida no mistério de Cristo. Devem transmitir a fé em Cristo também àqueles a quem estão ligados pela vida e profissão; esta obrigação impõe-se tanto mais quanto a maior parte dos homens não podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo senão pelos seus vizinhos leigos. Mais ainda: onde for possível, devem os leigos estar prontos a cumprir, em colaboração mais imediata com a Hierarquia, a missão especial de anunciar o Evangelho e comunicar a doutrina cristã, a fim de tornarem mais vigorosa a Igreja nascente.
Os ministros da Igreja, por sua vez, devem ter em muito apreço o apostolado activo dos leigos. Devem formá-los para, como membros de Cristo, tomarem consciência da sua responsabilidade em relação aos outros homens; devem instruí-los profundamente no mistério de Cristo, iniciá-los nos métodos práticos, assistir-lhes nas dificuldades, em conformidade com o pensamento da Constituição sobre a Igreja e do decreto sobre o Apostolado dos leigos.
Bem respeitadas as funções e as responsabilidades próprias dos pastores e dos leigos, a jovem igreja toda inteira deve dar um único testemunho vivo e firme de Cristo, a fim de se tornar um sinal luminoso da salvação que em Cristo veio até nós.
Diversidade na Unidade
22. A semente da palavra de Deus, germinando em boa terra, regada pelo orvalho divino, absorve a seiva, transforma-a e assimila-a para produzir fruto abundante. Certamente, de modo análogo à economia da encarnação, as igrejas jovens, enraizadas em Cristo e construídas sobre o fundamento dos Apóstolos, recebem, por um maravilhoso intercâmbio, todas as riquezas das nações que foram dadas a Cristo em heranças. Recebem dos costumes e das tradições dos seus povos, da sabedoria e da doutrina, das artes e das disciplinas, tudo aquilo que pode contribuir para confessar a glória do criador, ilustrar a graça do Salvador, e ordenar, como convém, a vida cristã (9).
Para conseguir este objectivo, é necessário que em cada grande espaço socio-cultural, se estimule uma reflexão teológica tal que, à luz da tradição da Igreja universal, as acções e as palavras reveladas por Deus, consignadas na Sagrada Escritura, e explicadas pelos Padres da Igreja e pelo magistério, sejam sempre de novo investigadas. Assim se entenderá mais claramente o processo de tornar a fé inteligível, tendo em conta a filosofia ou a sabedoria dos povos, e a maneira de os costumes, o sentido da vida e a ordem social poderem concordar com a moral manifestada pela revelação divina. Deste modo se descobrirá o caminho para uma mais profunda adaptação em toda a extensão da vida cristã. Toda a aparência de sincretismo e de falso particularismo, será assim excluída, a vida cristã conformar-se-á bem ao génio de cada cultura (10), as tradições particulares e qualidades próprias de cada nação, esclarecidas pela luz do Evangelho, serão assumidas na unidade católica. Enfim, as novas igrejas particulares, enriquecidas pelas suas tradições, terão o seu lugar na comunhão eclesiástica, ficando intacto o primado da cátedra de Pedro, que preside a toda a assembleia da caridade (11).
É, portanto, de desejar, ou antes, convém absolutamente que as Conferências episcopais, dentro dos limites de cada grande espaço socio-cultural, se unam entre si para, de ânimo concorde e pondo em comum os seus planos, conseguirem este objectivo da adaptação.
CAPÍTULO IV
OS MISSIONÁRIOS
A vocação missionária
23. Embora a todo o discípulo de Cristo incumba a obrigação de difundir a fé conforme as suas possibilidades(1), Cristo Senhor chama sempre dentre os discípulos os que Ele quer para estarem com Ele e os enviar a evangelizar os povos (2). E assim, mediante o Espírito Santo, que para utilidade comum reparte os carismas como quer (3), inspira no coração de cada um a vocação missionária e ao mesmo tempo suscita na Igreja Institutos (4), que assumem, como tarefa própria, o dever de evangelizar, que pertence a toda a Igreja.
De facto, são marcados com vocação especial aqueles que, dotados de índole natural conveniente e das qualidades e talentos requeridos, estão prontos para empreender o trabalho missionário (5), quer sejam nativos quer estrangeiros: sacerdotes, religiosos e leigos. Enviados pela legítima autoridade, partem, movidos pela fé e obediência, para junto dos que estão longe de Cristo, escolhidos para uma obra à qual foram destinados (6) como ministros do Evangelho, «a fim de que a oblação dos gentios seja aceite e santificada no Espírito Santo» (Rom. 15,16).
Espiritualidade missionária
24. Porém, ao chamamento de Deus, o homem deve responder de forma tal que, sem se deixar guiar pela carne e sangue(7), todo ele se entregue à obra do Evangelho. Mas esta resposta não pode ser dada senão por impulso e virtude do Espírito Santo. O enviado entra, portanto, na vida e missão d'Aquele que «a si mesmo se aniquilou tomando a forma de servo» (Fil. 2,7). Por conseguinte, deve estar pronto a perseverar toda a vida na vocação, a renunciar a si e a todas as suas coisas, e a fazer-se tudo para todos (8).
Anunciando o Evangelho aos povos, dê a conhecer confiadamente o mistério de Cristo, do qual é legado, de maneira que ouse falar d'Ele como convém (9), não se envergonhando do escândalo da cruz. Seguindo os passos do seu mestre, manso e humilde de coração, mostre que o Seu jugo é suave e leve a Sua carga (10). Mediante uma vida verdadeiramente evangélica (11), com muita paciência, longanimidade, suavidade, caridade sincera (12), dê testemunho do seu Senhor até à efusão do sangue, se for necessário. Alcançará de Deus virtude e força para descobrir a abundância de gozo que se encerra na grande prova da tribulação e da pobreza absoluta (13).
Persuada-se que a obediência é a virtude peculiar do ministro de Cristo que, pela Sua obediência, redimiu o género humano.
Os pregadores do Evangelho, para não negligenciar a graça que em si têm, renovem continuamente o seu espírito (14). Por sua vez, os Ordinários e os Superiores reunam os missionários em tempos determinados, a fim d.e mais se robustecerem na esperança da vocação e se renovarem no ministério apostólico, fundando até, para isso, casas apropriadas.
Formação espiritual e moral
25. Para tão sublime empresa, há-de o futuro missionário preparar-se com esmerada formação espiritual e moral (15). Deve, com efeito, ser capaz de tomar iniciativas, constante para levar a cabo as obras, perseverante nas dificuldades, suportando com paciência e fortaleza a solidão, a fadiga, o trabalho infrutuoso. Com espírito aberto e coração dilatado, irá ao encontro dos homens; abraçará de boa vontade os trabalhos que lhe confiarem; adaptar-se-á também generosamente aos diversos costumes e variadas condições dos povos; com ânimo concorde e mútua caridade colaborará com seus irmãos e com todos quantos se consagram à mesma empresa, de maneira que, juntamente com os fiéis, imitando a comunidade apostólica, tenham um só coração e uma só alma (16).
Estas disposições de espírito sejam diligentemente exercitadas, cuidadosamente cultivadas, elevadas e alimentadas com a vida espiritual, já desde o tempo da formação. Cheio de fé viva e esperança indefectível, o missionário seja homem de oração; arda no espírito de fortaleza, de caridade e de temperança (17); aprenda a bastar-se com o que tem (18); pelo espírito de sacrifício, leve em si o estado de morte de Jesus, a fim de que a vida de Jesus opere naqueles aos quais é enviado (19); com verdadeiro zelo gaste tudo e desgaste-se a si mesmo pelo bem das almas (20), de tal forma que «mediante o exercício diário do seu ministério, cresça no amor de Deus e do próximo» (21). Desta sorte, obedecendo com Cristo à vontade do Pai, continuará a Sua missão sob a autoridade hierárquica da Igreja, e cooperará no mistério da salvação.
Formação doutrinal e apostólica
26. Os que forem enviados aos diversos povos, como bons ministros de Cristo, devem ser alimentados «com a palavra da fé e da boa doutrina» (1 Tim. 4,6), a qual haurirão primeiramente na Sagrada Escritura, perscrutando o mistério de Cristo, de quem serão arautos e testemunhas.
E assim, todos os missionários — sacerdotes, irmãos, irmãs, leigos — sejam preparados e formados, cada qual segundo a sua condição, de maneira a estarem à altura das exigências do trabalho futuro (22). Já desde o começo, de tal modo se processe a sua formação doutrinal, que abranja tanto a universalidade da Igreja como a diversidade das nações. E isto vale tanto de todas as disciplinas, em que se formam para o desempenho do ministério, como das disciplinas úteis para o conhecimento dos povos, das culturas, das religiões, com vistas não só ao passado mas também ao tempo presente. Aquele, pois, que é destinado a outra nação, tenha em grande apreço o seu património, língua e costumes. Ao futuro missionário importa sumamente que se aplique aos estudos missiológicos, isto é, a conhecer a doutrina e as normas da Igreja em matéria de actividade missionária, a informar-se sobre os caminhos percorridos pelos arautos do Evangelho, ao longo dos séculos, como também sobre a condição presente das missões e sobre os métodos considerados hoje mais eficazes (23).
Embora toda a formação deva estar imbuída de solicitude pastoral, ministre-se-lhes, contudo, peculiar e bem orientada formação apostólica, quer teórica quer prática (24).
Forme-se o maior número possível de irmãos e de irmãs em catequética, para darem maior colaboração no apostolado.
Mesmo aqueles que se dedicam só por algum tempo à acção missionária, devem adquirir a formação adequada à sua condição.
Estas diversas espécies de preparação, porém, devem ser completadas nas próprias terras de missão, de modo que os missionários adquiram mais profundo conhecimento da história, das estruturas sociais e dos costumes dos povos, e se inteirem da ordem moral e dos preceitos religiosos, bem como do verdadeiro pensamento que esses povos, conforme suas tradições sagradas, possuem acerca de Deus, do mundo e do homem (25). Quanto às línguas, aprendam-nas de modo a usá-las com facilidade e elegância, e terem, assim, mais fácil acesso à inteligência e ao coração dos homens (26). Finalmente, sejam devidamente iniciados nas necessidades pastorais características da terra.
Haja também pessoal preparado de modo mais profundo em Institutos missiológicos ou noutras Faculdades ou Universidades, que possa desempenhar cargos de maior responsabilidade (27), e, com a sua ciência, auxiliar os outros missionários no exercício da obra evangelizadora, que, na hora actual, apresenta tantas dificuldades e oportunidades. Além disso, é muito para desejar que as Conferências episcopais regionais tenham à sua disposição um bom número destes peritos e que, nas necessidades do próprio cargo, façam proveitoso uso do seu saber e experiência. Nem falte igualmente quem saiba usar com perícia os instrumentos técnicos e de comunicação social, cuja importância todos reconheçam devidamente.
Institutos missionários
27. Tudo isto, embora absolutamente necessário a cada um dos enviados ao campo do apostolado, na realidade, dificilmente pode ser conseguido pelos indivíduos isolados. Visto que a mesma obra missionária, como prova a experiência, não pode ser realizada pelos indivíduos isolados, a vocação comum reuniu-os em Institutos, nos quais, pelo esforço comum, se formassem convenientemente e executassem essa tarefa em nome da Igreja e segundo a vontade da autoridade hierárquica. Os Institutos, desde há muitos séculos que têm suportado o peso do dia e do calor, consagrando-se inteiramente ou em parte à empresa apostólica. Muitas vezes a Santa Sé confiou à sua evangelização vastos territórios, nos quais reuniram para Deus um novo povo, uma igreja local à volta dos seus próprios pastores. A essas igrejas, fundadas à custa do seu suor e até do seu sangue, prestarão serviço com zelo e experiência em fraterna cooperação, já na cura das almas, já em cargos especiais em função do bem comum.
Algumas vezes, tomarão a seu cargo em toda uma região certos trabalhos mais urgentes, como por exemplo, a missionação de grupos ou de povos que, devido a especiais razões, ainda não receberam a boa nova do Evangelho, ou a ela resistiram até ao presente (28).
Se for preciso, dediquem-se a formar e ajudar com a sua experiência aqueles que se consagram por um tempo determinado à acção missionária.
Por todos estes motivos, e porque há ainda numerosas gentes para conduzir a Cristo, os Institutos continuam a ser da máxima necessidade.
CAPÍTULO V
A ORGANIZAÇÃO DA ACTIVIDADE MISSIONÁRIA
Introdução: sua necessidade
28. Os fiéis, em virtude de possuirem dons diferentes (1), devem colaborar no Evangelho, cada um segundo as suas possibilidades, aptidões, carismas e ministérios (2); é ainda necessário que todos, os que semeiam e os que segam (3), sejam um só (4), a fim de que, «conspirando livre e ordenadamente para o mesmo fim» (5), empreguem unânimemente as suas forças na edificação da Igreja.
Por isso, os trabalhos dos arautos do Evangelho e os auxílios dos restantes fiéis devem ser orientados e unidos de modo a que tudo se faça com ordem (1 Cor. 14,40) em todas as actividades e esferas da cooperação missionária.
Organização geral
29. O cuidado de anunciar o Evangelho em todas as partes da terra pertence, antes de mais, ao corpo episcopal (6); por isso, o Sínodo episcopal ou «Conselho permanente de Bispos para toda a Igreja» (7), entre os assuntos de importância geral (8), deve atender de modo especial à actividade missionária, que é a principal e a mais sagrada da Igreja (9).
Para todas as missões e para toda a actividade missionária, haja um só dicastério competente, a saber, a Congregação de «Propaganda Fide», que orientará e coordenará, em todo o mundo, tanto a actividade como a cooperação missionária, ressalvando-se, contudo, o direito das Igrejas orientais 1°.
Embora o Espírito Santo suscite, de muitos modos, na Igreja de Deus, o espírito missionário, e não poucas vezes se anteceda à acção dos que governam a vida da Igreja, este dicastério, contudo, deve promover, da sua parte, a vocação e a espiritualidade missionária, o zelo e a oração pelas missões, e uma exacta e adequada informação sobre elas. Suscite e distribua os missionários, segundo as necessidades mais urgentes das regiões. Organize um plano de acção; dele promanem as normas directivas, os princípios para a evangelização, e dele procedam os impulsos. Incite e coordene a recolha eficaz de subsídios, que devem distribuir-se segundo a medida da necessidade ou da utilidade, da extensão do território, do número de fiéis e infiéis, das obras e das instituições, dos auxiliares e dos missionários
Em união com o «Secretariado para a união dos cristãos», procure os meios de realizar e ordenar a colaboração fraterna e a convivência com as iniciativas missionárias doutras comunidades cristãs, a fim de se evitar, quanto possível, o escândalo da divisão.
Por isso, importa que este dicastério seja tanto instrumento de administração como órgão de direcção dinâmica, empregando os métodos científicos e os instrumentos adaptados às condições actuais, e tendo em conta a actual investigação da teologia, metodologia e pastoral missionária.
Na direcção deste dicastério, tenham parte muito activa, com voto deliberativo, representantes escolhidos de todos aqueles que trabalham na obra missionária: os Bispos de todo o mundo, depois de ouvidas as Conferências episcopais, e os Superiores dos Institutos e das Obras pontifícias, segundo as normas e proporções que o Romano Pontífice estabelecer. Todos estes, que hão-de ser convocados em datas fixas, exerçam, sob a autoridade do Sumo Pontífice, a suprema orientação de toda a obra missionária.
Esteja à disposição deste dicastério um grupo permanente de consultores peritos, de reconhecida ciência e experiência, aos quais pertence, entre outras coisas, reunir uma informação oportuna sobre as condições locais das várias regiões, a mentalidade dos diferentes grupos humanos, os métodos de evangelização a empregar, e propor conclusões cientificamente fundadas para a cooperação missionária.
Estejam convenientemente representados os Institutos de religiosas, as obras regionais a favor das missões, e as organizações de leigos, sobretudo as internacionais.
Organização local das missões
30. Para que, no exercício da obra missionária, se atinjam os fins e os resultados, devem todos os operários missionários ter um «só coração e uma só alma» (Act. 4,32).
Pertence ao Bispo, como regra e centro de unidade no apostolado diocesano, promover, dirigir e coordenar a actividade missionária, mas de tal modo que se conserve e fomente a iniciativa espontânea dos que participam na obra. Todos os missionários, mesmo os religiosos isentos, estão sob a sua jurisdição nos vários trabalhos que dizem respeito ao exercício do apostolado (11). Para melhor coordenação, constitua o Bispo, na medida do possível, um Conselho pastoral, em que participem, por meio de delegados escolhidos, os clérigos, os religiosos e os leigos. Procure ainda que a acção apostólica não se limite aos convertidos, mas que os operários e os subsídios se destinem equitativamente à evangelização dos não-cristãos.
Organização regional
31. As Conferências episcopais resolvam, de comum acordo, as questões mais graves e os problemas mais urgentes, sem menosprezarem, contudo, as diferenças locais (12). Para não dissipar o número já insuficiente de pessoas e de subsídios e não multpilicar sem necessidade as iniciativas, recomenda-se a fundação de obras comuns que sirvam o bem de todos; por exemplo, seminários, escolas superiores e técnicas, centros de pastoral, catequética, liturgia e dos meios de comunicação social.
Organize-se igualmente uma oportuna cooperação entre as diversas Conferências episcopais.
Actividade dos Institutos missionários
32. E ainda da máxima importância coordenar as actividades exercidas pelos Institutos ou Associações eclesiásticas. Todos eles, seja qual for o seu género, devem secundar o Ordinário do lugar, em tudo o que se relaciona com a actividade missionária. Por isso, aproveitará muito realizar acordos particulares, em que se regulem as relações entre o Ordinário do lugar e o Superior do Instituto.
Quando a um Instituto for confiado um território, o Superior eclesiástico e o Instituto tenham muito a peito orientar tudo para que a nova comunidade cristã se transforme em igreja local, a qual, no momento oportuno, será governada por pastor próprio, com o seu clero.
Ao acabar o encargo do território, surge uma nova condição. Então, as Conferências episcopais e os Institutos, de comum acordo, estabeleçam as normas que hão-de reger as relações entre os Ordinários de lugar e os Institutos (13). Contudo, pertence à Santa Sé estabelecer os princípios gerais, pelos quais se organizarão os acordos regionais ou até particulares.
Os Institutos devem estar prontos a continuar a obra começada, colaborando no ministério ordinário da cura de almas: mas, com o aumento do clero local, deve providenciar-se a que os Institutos, na medida em que for conforme à sua finalidade, se mantenham fiéis à própria diocese, encarregando-se generosamente de obras especiais ou de alguma região.
Coordenação dos Institutos missionários
33. Os diversos Institutos que se dedicam à actividade missionária no mesmo território procurem os processos e os modos de coordenar as suas obras. Serão, portanto, de grande utilidade, as Conferências de religiosos e as Uniões de religiosas, em que participem todos os Institutos da mesma nação ou região. Vejam Conferências o que podem fazer com o esforço comum e mantenham estreitas relações com as Conferências episcopais.
Tudo isto, por igual motivo, convém estendê-lo à colaboração dos Institutos missionários na sua pátria de origem, de modo que mais facilmente e com menos despesas se possam resolver os assuntos e empreendimentos comuns, como, por exemplo, a formação doutrinal dos futuros missionários, os cursos para missionários, as relações para com as autoridades civis ou organismos nacionais e internacionais.
Coordenação dos Institutos científicos
34. Como o recto e ordenado exercício da actividade missionária exige que os operários evangélicos se preparem cientificamente para a sua função, sobretudo para o diálogo com as religiões e culturas não-cristãs, e que sejam ajudados eficazmente na execução, é de desejar que colaborem entre si fraterna e generosamente a favor das missões todos os Institutos científicos que estudam missiologia e outras disciplinas ou artes úteis às missões, como a etnologia e a linguística, a história e a ciência das religiões, a sociologia, a pastoral e outras coisas semelhantes.
CAPÍTULO VI
A COOPERAÇÃO
Introdução. Consciência da responsabilidade
35. Dado que a Igreja é toda ela missionária, e a obra da evangelização é um dever fundamental do Povo de Deus, o sagrado Concílio exorta todos a uma profunda renovação interior, para que tomem viva consciência das próprias responsabilidades na difusão do Evangelho e assumam a parte que lhes compete na obra missionária junto dos gentios.
Dever missionário de todo o povo de Deus
36. Como membros de Cristo vivo e a Ele incorporados e configurados não só pelo Baptismo mas também pela Confirmação e pela Eucaristia, todos os fiéis estão obrigados, por dever, a colaborar no crescimento e na expansão do Seu corpo para o levar a atingir, quanto antes, a sua plenitude(1).
Por isso, todos os filhos da Igreja tenham consciência viva das suas responsabilidades para com o mundo, fomentem em si um espírito verdadeiramente católico, e ponham as suas forças ao serviço da obra da evangelização. Saibam todos, porém, que o primeiro e mais irrecusável contributo para a difusão da fé, é viver profundamente a vida cristã. Pois o seu fervor no serviço de Deus e a sua caridade para com os outros é que hão-de trazer a toda a Igreja o sopro de espírito novo que a fará aparecer como um sinal levantado entre as nações (2), como «luz do mundo» (Mt. 5,14) e «sal da terra» (Mt. 5,13). Este testemunho de vida produzirá mais facilmente o seu efeito, se for dado conjuntamente com as outras comunidades cristãs, segundo as normas do decreto sobre o ecumenismo (3).
Deste espírito renovado brotará espontâneamente a oferta de orações e de obras de penitência a Deus, para que fecunde com a sua graça a acção dos missionários; dele nascerão vocações missionárias e sairão os recursos de que as missões necessitam.
Porém, para que todos e cada um dos fiéis conheçam plenamente o estado actual da Igreja no mundo e oiçam a voz das multidões que clamam: «Vem em nosso auxílio» (4) facilitem-se, até pelos meios modernos de comunicação social, notícias missionárias tais que os façam sensíveis à actividade missionária e lhes abram o coração a tão profundas e imensas necessidades dos homens par lhes poderem valer.
É também necessária uma coordenação das notícias e a cooperação com os organismos nacionais e internacionais.
Dever missionário das comunidades cristãs
37. Como o Povo de Deus vive em comunidades, sobretudo diocesanas e paroquiais, e é nelas que, de certo modo, se torna visível, pertence a estas dar também testemunho de Cristo perante as nações.
A graça da renovação não pode crescer nas comunidades, a não ser que cada uma dilate o campo da sua caridade até aos confins da terra e tenha igual solicitude pelos que são de longe como pelos que são seus próprios membros.
Assim, toda a comunidade reza, coopera e exerce actividade entre os gentios, por meio dos seus filhos a quem Deus escolheu para este importantíssimo encargo.
É muito útil que, contanto que não crie desinteresse pela obra missionária universal, manter relações com os missionários oriundos da própria comunidade ou com determinada paróquia ou diocese das missões, para tornar visível a comunhão entre as comunidades e contribuir para mútua edificação.
Dever missionário dos Bispos
38. Todos os Bispos, como membros do corpo episcopal, sucessor do Colégio apostólico, são consagrados não só em benefício duma diocese mas para salvação de todo o mundo. O mandato de Cristo de pregar o Evangelho a toda a criatura (5) afecta-os, primária e imediatamente a eles, com Pedro e sob Pedro. Daí nascem aquela comunhão e cooperação das igrejas, hoje tão necessárias para levar a cabo a obra da evangelização. Em virtude desta comunhão, cada uma das igrejas leva em si a solicitude por todas as outras, manifestam umas às outras as próprias necessidades, comunicam entre si as suas coisas, pois a dilatação do corpo de Cristo é dever de todo o Colégio episcopal (6).
Na sua diocese, o Bispo, que forma uma só coisa com ela, ao suscitar, promover e dirigir a obra missionária, torna presentes e como que palpáveis o espírito e o ardor missionário do Povo de Deus, de maneira que toda a diocese se torna missionária. É da responsabilidade do Bispo suscitar no seu povo e sobretudo entre os doentes e os oprimidos, almas que ofereçam a Deus, de todo o coração, orações e penitências pela evangelização do mundo; favorecer de bom grado as vocações de jovens e até de clérigos para os Institutos missionários, aceitando reconhecido que Deus escolha alguns para a actividade missionária da Igreja; exortar e ajudar as Congregações diocesanas para que assumam a sua parte nas missões; promover junto dos seus fiéis as obras dos Institutos missionários, mas sobretudo as Obras missionárias pontifícias. Com todo o direito se deve dar o primeiro lugar a estas Obras, uma vez que são meios quer para dar aos católicos um sentido verdadeiramente universal e missionário logo desde a infância, quer para promover colectas eficazes de subsídios para bem de todas as missões segundo as necessidades de cada uma (7).
Como cresce de dia para dia a necessidade de operários na vinha do Senhor e os sacerdotes diocesanos desejam, eles também, ter parte cada vez maior na evangelização do mundo, o sagrado Concílio deseja que os Bispos, ponderando a gravíssima penúria de sacerdotes que impede a evangelização de muitas regiões, enviem, depois da devida preparação, alguns dos seus melhores sacerdotes que se ofereçam para as missões, para as dioceses mais carecidas de clero, com o fim de exercerem aí o ministério missionário em espírito de serviço, pelo menos durante um tempo determinado (8).
Mas, para que a actividade missionária dos Bispos a bem de toda a Igreja se possa exercer mais eficazmente, convém que as Conferências episcopais tomem a direcção de todos os assuntos que dizem respeito a uma ordenada cooperação da própria região.
Nas suas Conferências tratem os Bispos dos sacerdotes do clero diocesano que devem dedicar à evangelização dos gentios; da contribuição fixa que cada diocese, em proporção com os seus recursos, deve oferecer todos os anos para a obra das missões (9); da direcção e organização das formas e dos meios de ajudar directamente as missões; do auxílio e, se for preciso, até da fundação de Institutos missionários e seminários do clero diocesano para as missões; do estreitamento dos laços entre estes Institutos e as dioceses.
Às Conferências episcopais pertence também fundar e promover instituições que fraternalmente recebam e ajudem, com o devido interesse pastoral, os que, por razões de estudo ou de trabalho, emigram das terras de missão. Por eles, com efeito, povos longínquos tornam-se em certo modo vizinhos, e às comunidades cristãs mais antigas oferece-se uma óptima ocasião de dialogar com nações que ainda não ouviram pregar o Evangelho e de lhes mostrar no próprio exercício do amor e da ajuda, o genuíno rosto de Cristo (10).
Dever missionário dos sacerdotes
39. Os sacerdotes representam a pessoa de Cristo e são cooperadores da ordem episcopal, na tríplice função sagrada, que por sua natureza tem relação com a missão da Igreja (11). Entendam, pois, muito bem que a sua vida foi consagrada também ao serviço das missões. Uma vez que pelo seu mesmo ministério — que consiste principalmente na Eucaristia, que aperfeiçoa a Igreja — estão em comunhão com Cristo cabeça e trazem os outros a essa comunhão, não podem deixar de sentir quanto falta ainda para o pleno crescimento do corpo e quanto há que fazer, portanto, para que vá crescendo cada vez mais. Organizarão, pois, de tal maneira o trabalho pastoral que contribua para a dilatação do Evangelho entre os não-cristãos.
Os sacerdotes, no trabalho pastoral, farão por excitar e alimentar entre os fiéis o zelo pela evangelização do mundo, instruindo-os com a catequese e a pregação sobre o dever que a Igreja tem de anunciar Cristo aos gentios; persuadindo as famílias cristãs da necessidade e da honra de cultivar as vocações missionárias entre os próprios filhos e filhas; fomentando o fervor missionário entre os jovens das escolas e associações católicas, de maneira a sairem dentre eles futuros arautos do Evangelho. Ensinem os fiéis a orar pelas missões e não tenham vergonha de lhes pedir esmolas, feitos como que mendigos por Cristo e pela salvação das almas (12).
Os professores dos Seminários e Universidades elucidarão os alunos sobre a verdadeira situação do mundo e da Igreja, para que abram os olhos à necessidade duma evangelização mais intensa dos não-cristãos e o seu zelo se acenda. E ao ensinar as questões dogmáticas, bíblicas, morais e históricas, chamem a atenção para os aspectos missionários nelas contidos, para desse modo se ir formando a consciência missionária dos futuros sacerdotes.
Dever missionário dos Institutos
40. Os Institutos religiosos de vida contemplativa e activa tiveram até agora e continuam a ter a maior parte na evangelização do mundo. O sagrado Concílio reconhece gostosamente os seus méritos e dá graças a Deus por tantos esforços prestados à causa da glória de Deus e do serviço das almas e exorta-os a prosseguir incansàvelmente na obra começada, sabendo, como sabem, que a virtude da caridade, que por vocação têm de cultivar com mais perfeição, impele e obriga a um espírito e a um trabalho verdadeiramente católicos (13).
Os Institutos de vida contemplativa, pelas suas orações, penitências e tribulações, têm uma importância máxima na conversão das almas, visto que é Deus quem pelas nossas orações envia operários para a Sua messe (14), abre as almas dos não-cristãos para ouvir o Evangelho (15), e fecunda nos seus corações a palavra da salvação (16). Pede-se até a esses Institutos que fundem casas nas terras de missão como já bastantes fizeram, para que, levando aí uma vida acomodada às genuínas tradições religiosas dos povos, dêem entre os não-cristãos um testemunho brilhante tanto da majestade e da caridade de Deus como da sua união em Cristo.
Por seu lado, os Institutos de vida activa, quer tenham um fim estritamente missionário quer não, examinem sinceramente diante de Deus se podem alargar mais a sua actividade em ordem à expansão do reino de Deus entre os gentios; se podem deixar a outros, certos ministérios, para dedicar às missões as suas forças; se podem começar a ter actividades nas missões, adaptando, se for preciso, as suas Constituições, embora segundo a mente do fundador; se os seus membros participam quanto podem na actividade missionária; se o seu modo de viver é um testemunho do Evangelho adaptado à índole e às condições do povo.
Uma vez que, sob a inspiração do Espírito Santo, crescem de dia para dia na Igreja os Institutos seculares, a sua ajuda, sob a autoridade do Bispo, pode ser a muitos títulos proveitosa para as missões, como sinal duma entrega plena à evangelização do mundo.
Dever missionário dos leigos
41. Os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica (17), ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos sobretudo se, depois de chamados por Deus, são incorporados pelos Bispos nesta empresa.
Nas terras já cristãs, os leigos concorrem para a obra de evangelização, fomentando em si e nos outros o conhecimento e o amor pelas missões, suscitando vocações na própria família, nas associações católicas e nas escolas, oferecendo auxílios de toda a espécie para que o dom da fé, que eles receberam de graça, possa ser também oferecido a outros.
Nas terras de missão, os leigos, quer estrangeiros quer nativos, exerçam o ensino nas escolas, administrem as coisas temporais, colaborem na actividade paroquial e diocesana, iniciem e promovam as várias formas de apostolado dos leigos, para que os fiéis das igrejas jovens possam assumir quanto antes a sua parte na vida da Igreja (18).
Finalmente, prestem os leigos, de bom grado, colaboração económico-social aos povos em vias de desenvolvimento; essa colaboração será tanto mais de louvar, quanto mais se relaciona com a criação daquelas instituições que atingem as estruturas fundamentais da vida social ou se ordenam à formação daqueles que têm responsabilidade de governo.
São dignos de particular louvor aqueles leigos que nas Universidades ou em Institutos científicos promovem, com as suas investigações históricas ou científico-religiosas, o conhecimento dos povos e das religiões, ajudando assim os pregadores do Evangelho e preparando o diálogo com os não-cristãos.
Colaborem fraternalmente com os outros cristãos, com os não-cristãos, sobretudo com os membros das organizações internacionais, tendo sempre diante dos olhos e preocupação de que «a edificação da cidade terrena se alicerce no Senhor e para Ele se oriente»(19).
Para desempenhar todas estas funções, precisam os leigos da necessária preparação técnica e espiritual, que se deve dar em Institutos a isso destinados, para que a sua vida seja entre os não-cristãos um testemunho de Cristo, segundo a palavra do Apóstolo: «Não deis ocasião de escândalo nem a judeus nem a gentios nem à Igreja de Deus, como também eu em tudo procuro agradar a todos, não buscando a minha própria utilidade, mas a dos outros, a fim de que sejam salvos» (1Cor. 10, 32-33).
CONCLUSÃO
42. Os Padres do Concílio, em união com o Romano Pontífice, sentindo vivamente a obrigação de difundir por toda a parte o reino de. Deus, saudam muito afectuosamente todos os pregadores do Evangelho, sobretudo aqueles que sofrem perseguição pelo nome de Cristo, e associam-se aos seus sofrimentos (20).
Também eles se sentem inflamados do mesmo amor em que Cristo ardia pelos homens. Mas, conscientes de que Deus é quem faz com que o seu reino venha ao mundo, unem as suas preces às de todos os cristãos para que, por intercessão da Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, as nações sejam quanto antes conduzidas ao conhecimento da verdade (21) e a glória de Deus, que resplandece no rosto de Jesus Cristo, comece a brilhar para todos pelo Espírito Santo (22).

Roma, 7 de Dezembro de 1965
PAPA PAULO VI